Ele não está aqui

Ovo de Páscoa pintado a mão por Alice Mantei Tosetto (foto: Jean Tosetto)

Quando o maior milagre de toda a história aconteceu, os soldados que montavam guarda do lado de fora do túmulo de Jesus, tremeram e fugiram, indo encontrar-se com seus chefes para relatar o que haviam visto com seus próprios olhos. Depois, embora tendo sido testemunhas oculares do fato, fascinados por uma boa quantia de dinheiro, mudaram seu relatório.

No domingo bem cedo, as mulheres dirigiram-se ao túmulo de Jesus, levando perfumes para perfumar o corpo de seu Mestre. Lá chegando, um anjo lhes dá a notícia da ressurreição: “Ele não está aqui”, Mt.28.6. Elas correm amedrontadas, mas alegres, para contar a novidade aos discípulos.

Pedro e João, avisados pelas mulheres, correm até o túmulo e além de verem que no interior do mesmo só estavam a faixa e os lençóis, também constatam: “Ele não está aqui” e voltam para casa.

Como tudo na vida de Jesus, sua ressurreição atrai reações contrastantes. Quem crê é transformado e sua vida se enriquece de esperança, amor e coragem para testemunhar da Verdade que liberta. Quem opta por não crer procura desculpas e acaba encontrando maneiras mesquinhas de ignorar evidências comprovadas pelos próprios olhos.

Qual é a nossa reação diante da ressurreição de Jesus? Talvez uma breve reflexão apenas, porque já conhecemos os fatos da história e sabemos que após a Sexta-Feira Santa vem o Domingo da Páscoa – a festa da vitoriosa ressurreição. E quem sabe até, por causa disso, não desfrutamos esta consoladora mensagem com todo o poder e paz que lhe são inerentes.

Cuidado! Não deixemos que a Páscoa se torne apenas um cântico de glórias e aleluias, num dia determinado. Mas que sua mensagem transforme realmente nosso coração e que, a partir dela, vivamos com alegria esta novidade de vida, ajudando sempre mais pessoas a participarem e partilharem esta realidade.

Atentemos para a sábia e inspirada advertência do apóstolo Paulo: “Se a nossa esperança em Cristo só vale para esta vida, nós somos as pessoas mais infelizes deste mundo.” 1 Co. 15.19.

- Pastor Alaor

Publicado originalmente no boletim informativo da CELC/SP - nº375

Ver Deus

Metáfora para Tolstói - por Jean Tosetto


León Tolstói, famoso escritor russo, deixou-nos esta preciosa história:

Havia certo rei que já tinha vivido e visto muitas coisas. Aí ele, a todo o custo, também queria ver Deus. E como ele exercia seu poder de modo absolutista e ditatorial, deu uma ordem aos seus sacerdotes e sábios que lhe possibilitassem realizar este seu desejo.

Naturalmente, ninguém conseguiu atendê-lo. E todos já estavam tristes por causa do castigo que o rei iria lhes aplicar. Aí apareceu, vindo do campo, um pastor de ovelhas, que tinha ouvido falar daquela ordem do rei. Ele lhe disse: “Majestade, permita-me que eu cumpra vosso desejo.

O rei respondeu: “Está bem! Mas lembra-te de que a tua cabeça estará em jogo!” O pastor levou o rei a um lugar a céu aberto e lhe mostrou o sol. “Olhe para ele,” disse o pastor. O rei ergueu os seus olhos e queria fitar o sol. Mas o seu brilho era forte demais, e por isso ele baixou a cabeça e fechou os olhos e disse ao pastor: “Tu queres que eu fique cego?!

Mas majestade”, disse o pastor, “isto é apenas uma parte da criação, uma cópia pálida da grandeza de Deus, uma pequena centelha de uma fogueira de chamas. Como é que vossa majestade quer ver Deus com seus olhos fracos e lacrimejantes? Procure a ele com outros olhos.

Esta ideia agradou ao rei. E ele disse ao pastor: “Reconheço o teu espírito e vejo a grandeza de tua alma. Mas, responde-me agora: O que existia antes de Deus?” Após refletir por algum tempo o pastor disse: “Majestade, não se aborreça com o meu pedido! Mas conte!” O rei começou a contar: Um, dois, três...

Não, não assim!,” interrompeu o pastor, “comece com aquilo que vem antes de um!” “Como é que eu posso? Antes do “um” não há nada!” disse o monarca. “Muito sábio o seu argumento, Majestade”, disse o pastor. E concluiu: “Antes de Deus também não existia nada.

Esta resposta agradou ao rei, mais que a anterior. Então ele disse ao pastor de ovelhas: “Vou te recompensar regiamente! Mas antes me responde a terceira pergunta: O que é que Deus faz?” O pastor compreendeu que o coração do rei havia se comovido. “Bem”, disse ele, “também esta pergunta eu quero responder à Vossa Majestade. Eu só lhe peço uma coisa antes: Vamos trocar as nossas vestes por um breve momento.

E ambos trocaram as suas vestes. E aí o pastor disse: “É isto que Deus faz: Ele desceu do seu trono excelso e tornou-se um de nós. Ele dá a nós o que Ele tem, e aceita o que nós temos e somos.

Quaresma é um período especial para meditarmos sobre o grande amor de Deus que veio sofrer e morrer por nós, nos resgatar e nos dar novas vestes. Que ao acompanhar os passos de Jesus em direção ao Gólgota nos lembremos que Ele fez isso porque Deus tem propósitos eternos para cada um de nós, suas criaturas.

- Pastor Alaor

Publicado originalmente no boletim informativo da CELC/SP - nº374