O contador e o Salvador

O contador e o Salvador

Você já parou para pensar na importância das contas em nosso mundo? É uma das primeiras coisas que aprendemos na escola. E, quando crescemos, continuamos contando o tempo todo. Contamos dinheiro, calorias, os dias que faltam para uma ocasião especial, o troco que recebemos. Na verdade, contamos tantas coisas ao longo da vida que nem percebemos o quanto estamos contando.

Os números fazem parte do nosso dia a dia. E o curioso é que essa mania de contar não fica apenas nas coisas materiais. Muitas vezes também fazemos contas espirituais. Contamos nossos acertos e erros, nossos sucessos e fracassos. E, sem perceber, imaginamos que Deus esteja fazendo as mesmas contas que nós fazemos.

No Evangelho de hoje encontramos dois personagens muito diferentes. De um lado, Mateus, o contador. Um homem acostumado a trabalhar com dívidas e contas. Do outro lado, Jesus, o Salvador. Aquele que veio não para cobrar dívidas, mas para perdoá-las.

Mateus era um homem acostumado a contar. Ele era cobrador de impostos. Todos os dias lidava com números, dívidas e dinheiro. Sabia exatamente quanto as pessoas deviam, quanto deveria ser entregue aos romanos e quanto ficaria para ele. Mas naquele dia o especialista em contas receberia uma lição sobre a forma como Deus conta.

Jesus passou por ele e disse: Venha comigo (Mt 9.9). E Mateus se levantou e o seguiu.

É uma cena impressionante. Porque Mateus certamente tinha motivos para ficar onde estava. Possuía um emprego lucrativo, tinha estabilidade financeira e uma vida organizada. E mais do que isso: era um homem que sabia muito bem quem era aos olhos das outras pessoas. Ele era considerado pecador.

Na época, os cobradores de impostos estavam entre as pessoas mais desprezadas da sociedade. Eram vistos como traidores, exploradores e indignos. Por isso, é possível imaginar as perguntas que passavam por sua cabeça: Por que Jesus chamaria alguém como eu? Por que escolher justamente um pecador? Por que abandonar tudo para segui-lo?

Pelas contas humanas, nada disso fazia sentido. Mas Mateus se levantou e seguiu Jesus.

Para entender o que aconteceu ali, precisamos perceber algo importante: Deus conta de maneira diferente da nossa.

Nós costumamos imaginar que Deus está fazendo uma contabilidade da nossa vida. Colocamos nossos pecados de um lado e nossas boas obras do outro. E esperamos que, no final, o lado positivo seja maior. Mas Deus não usa esse critério.

Na leitura de Oséias ouvimos Deus dizer:

Eu quero que me amem e não que me ofereçam sacrifícios; em vez de me trazer ofertas queimadas, eu prefiro que o meu povo me obedeça. (Os 6.6)

O povo de Israel havia começado a acreditar que a quantidade de sacrifícios era o mais importante. Mas Deus deixa claro que não era isso que ele procurava. O que ele desejava era fé, confiança, amor e conhecimento dele. Deus não estava impressionado pelos números.

E talvez nós não sejamos tão diferentes daquele povo. Também podemos cair na tentação de pensar que Deus se impressiona com números: quantas vezes viemos ao culto, quantas ofertas entregamos, quantas atividades realizamos ou quantas boas ações acumulamos. Nenhuma dessas coisas é ruim. Mas nenhuma delas pode ocupar o lugar da fé. O problema começa quando passamos a acreditar que elas nos tornam aceitáveis diante de Deus.

É justamente aí que a leitura de Romanos nos ajuda. Ali Paulo nos mostra o que realmente conta diante de Deus. Não são muitas coisas. É uma só:

Por isso Abraão, por meio da fé, “foi aceito por Deus.” (Rm 4.22)

Abraão não foi salvo porque realizou obras suficientes. Não foi salvo porque suas virtudes superaram seus pecados. Foi salvo pela fé.

E aqui encontramos uma das maiores mentiras que Satanás conta ao mundo: a ideia de que podemos conquistar a aceitação de Deus através do nosso desempenho. Essa mentira produz dois resultados.

Alguns se tornam orgulhosos. Olham para sua vida e concluem que estão indo muito bem diante de Deus.

Outros se tornam desesperados. Olham para seus pecados e concluem que jamais serão aceitos por ele.

Mas tanto o orgulho quanto o desespero nascem da mesma ilusão: a ideia de que nossa relação com Deus depende daquilo que fazemos. O arrependimento começa quando abandonamos essa falsa contabilidade, quando reconhecemos que não podemos nos justificar diante de Deus.

Então ouvimos a boa notícia do Evangelho. Pela fé, os pecados de Abraão foram apagados pelo sangue de Cristo. E pela mesma fé, a justiça de Cristo foi creditada a ele. Por isso Paulo escreve que Jesus foi entregue à morte por causa dos nossos pecados e foi ressuscitado para que fôssemos aceitos por Deus. (Rm 4.25)

Essa é a grande troca realizada por Cristo. Ele assume nossa culpa e nos concede sua justiça. Não apenas para Abraão, mas também para nós.

Paulo escreve:

Essas palavras: ‘Ele foi aceito por Deus’ não foram escritas somente por causa de Abraão. Foram escritas também por nossa causa. (Rm 4.23-24)

Portanto, aquilo que contou para Abraão continua contando para nós: a fé. Fé em Jesus Cristo. Fé naquele que morreu pelos nossos pecados. Fé naquele que ressuscitou para nossa justificação.

É por isso que a principal tarefa da Igreja não é ensinar uma lista de regras. A principal tarefa da Igreja é entregar Cristo aos pecadores. Porque é pela fé que recebemos os benefícios da sua obra.

E é exatamente isso que acontece no culto. No Batismo, Deus não avalia méritos. Ele concede graça. Na absolvição, Deus não faz um balanço dos nossos acertos e erros. Ele anuncia o perdão conquistado por Cristo. Na Santa Ceia, Deus não pergunta quantos pontos acumulamos durante a semana. Ele nos entrega novamente o corpo e o sangue de Jesus para o fortalecimento da fé.

É assim que Deus continua dando, alimentando e fortalecendo a fé.

E então acontece algo importante. As boas obras continuam existindo. Continuamos lutando contra o pecado. Continuamos procurando viver de acordo com a vontade de Deus. Mas já não fazemos isso para conquistar o favor divino. Fazemos isso porque Cristo já nos alcançou com sua graça.

Esta continua sendo a mensagem que o mundo tem dificuldade de aceitar. Porque o mundo mede as pessoas por desempenho, por resultados e por merecimento. Mas Deus conta de maneira diferente.

Ele chama pecadores. Ele acolhe pessoas com histórias complicadas. Ele perdoa aqueles que não conseguem apagar seus próprios erros. Foi isso que escandalizou os fariseus. E continua escandalizando o orgulho humano ainda hoje.

Por que Jesus chamaria Mateus? Por que se sentaria à mesa com pecadores? Por que acolheria gente que tem tanto a corrigir na vida?

A resposta é simples: Porque foi exatamente para pessoas assim que ele veio. Jesus declarou: Porque eu vim para chamar os pecadores e não os bons. (Mt 9.13)

Porque diante de Jesus ninguém é apenas a soma dos seus erros. E isso inclui Mateus. Isso inclui você. Isso inclui a mim.

Mateus passava seus dias calculando dívidas. Jesus passou os seus dias caminhando em direção à cruz para pagá-las.

Deus conta de maneira diferente da nossa. Foi Cristo quem veio do céu para nos encontrar. Foi Cristo quem assumiu a dívida dos nossos pecados. Foi Cristo quem acertou a conta na cruz. Foi Cristo quem ressuscitou para nos dar sua justiça. E agora ele continua chamando pecadores e concedendo seus dons: fé, perdão, vida e salvação.

Recebendo esses dons, deixamos de confiar em nossas próprias contas e passamos a confiar em Cristo. E então acontece o mesmo que aconteceu com Mateus: arrependemo-nos, levantamo-nos e seguimos Jesus. Amém.

MENSAGEM DO 2º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

Textos: Mateus 9.9-13; Os 5.15-6.6 e Rm 4.13-25

Pastor Filipe Schneider – 07.06.2026

Nota do editor:

Você já sofreu com pedras nos rins? Algumas pessoas falam em cálculos renais. De fato, pedra e cálculo são sinônimos, ao menos na origem dos termos.

Fazer contas é sinônimo de calcular, até hoje. Antigamente, fazer contas era literalmente contar pedras. Esse costume faz parte do princípio da relação dos humanos com a matemática. No Japão, tal prática é preservada por meio do Soroban, uma espécie de ábaco em forma de moldura retangular com várias hastes, nas quais se deslizam pequenas peças (também conhecidas como contas ou pedrinhas) que auxiliam o usuário em somas simples e até para encontrar 
raízes quadradas.

Não por acaso, Pitágoras, aquele mesmo do teorema, compreendia que os números estavam na origem e na substância de todas as coisas, relacionando a matemática com uma ordem divina.

Jesus foi denominado em textos sagrados como "a pedra angular", aquela que ordena toda a base e alinhamento de uma grande edificação. Assim, a rocha forte está associada à confiança, um conceito de grande significado para a fé e também para as finanças.

Não existe transação financeira sem o princípio da confiança, onde as partes envolvidas precisam acreditar umas nas outras. Por isso, quando se fala que determinada pessoa ou instituição tem crédito na praça, estão afirmando que essa pessoa ou instituição é digna de confiança, de fé pública.

Logo, estudar a matemática e cuidar das contas da casa, por exemplo, não é coisa de gente meramente materialista, mas daqueles que compreendem que corpo e espírito são interdependentes e amalgamados, ao menos nesta realidade mundana.

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Sejam pacientes

Sejam pacientes

Você costuma ser paciente ou impaciente? Ao que tudo indica, vivemos numa época que nos treinou para o imediatismo. Acabou o tempo de escrever cartas e esperar semanas por uma resposta. Hoje esperamos que tudo seja rápido. Imediato. Até aqueles seis segundos de anúncio no YouTube parecem longos demais.

E, no entanto, a palavra que mais se destaca na Epístola de hoje — paciência — parece totalmente fora de sintonia com nosso modo de vida. Tiago repete esse termo quatro vezes, em quatro versículos diferentes. Apontando, com isso, como a paciência se faz necessária. Nesta época do ano, com corrida por compras, compromissos, festas e férias, nossa impaciência só aumenta. E é nesse contexto que Deus nos chama à paciência.

Mas o que há por trás disso? Por que alguns parecem esperar com mais serenidade do que outros? Será que paciência é apenas um traço de personalidade?

Ou será que, quando falamos de paciência diante de Deus, estamos falando, na verdade, de controle? Quando ficamos impacientes com Ele, não seria porque desejamos dirigir os acontecimentos? Controlar o tempo, o modo das coisas e o resultado?

Se for assim, então o chamado divino à paciência é também um chamado ao arrependimento: a abrir mão do controle, deixar Deus ser Deus e colocar nossas circunstâncias — todas elas — em Suas mãos.

João Batista: do deserto à prisão

O Evangelho de hoje nos leva novamente a João Batista, mas numa situação muito diferente daquela do domingo passado. Antes o vimos pregando com força, chamando ao arrependimento, anunciando o Reino e preparando o caminho do Senhor. Havia movimento, expectativa, resultados.

Agora, João está preso. Herodes se cansou de sua pregação e o colocou no cárcere.

E é dali, da prisão, que João envia sua famosa pergunta a Jesus: “O senhor é aquele que ia chegar ou devemos esperar outro?”

Percebe a tensão por trás disso? João talvez pensasse: “Se Jesus é o Messias, por que não faz nada? Por que me deixa aqui? Ele não vai me libertar?”

É a pergunta de quem sofre, de quem está cansado, de quem sente o peso do tempo e das circunstâncias. É a pergunta de quem está perdendo o controle — e sente isso profundamente.

A resposta de Jesus: paciência, João

Jesus responde apontando para os sinais: cegos veem, os coxos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e os pobres recebem o evangelho.

Tudo conforme Isaías havia dito que aconteceria quando o Messias viesse.

Em outras palavras: “Está acontecendo, João. O Reino está avançando. Mas Deus decide quem, quando e como. Deixe Deus ser Deus. E felizes são aqueles que não abandonam a sua fé em mim!

Bem-aventurado quem confia mesmo quando não entende. Quem espera mesmo quando tem perguntas. Quem abre mão do controle e descansa na promessa.

E, depois de responder a João, Jesus o elogia. Fala de sua grandeza. Ou seja: João não está sofrendo porque fez algo errado. Não está sendo punido enquanto outros são curados. Pelo contrário: de todos os homens que já nasceram, João Batista é o maior, declara Jesus.

Aqui aprendemos algo precioso: não podemos medir o favor de Deus pelas aparências externas. Qualquer tentativa de fazer isso é querer retomar o controle. E isso não nos pertence.

Paciência: o caminho do Reino

Tiago ecoa o mesmo chamado: “Sejam pacientes até a vinda do Senhor.”

Há dois caminhos diante de nós:

  1. O caminho da paciência, que é o caminho da fé e da confiança;
  2. O caminho da incredulidade, que tenta controlar tudo, manipular Deus, moldá-lo aos nossos desejos.

O segundo caminho é sedutor. Fala ao nosso coração pecador que quer mandar e decidir. Mas é o caminho da idolatria — colocar o próprio “eu” no trono que pertence ao Senhor.

Por isso nossa oração precisa ser a daquele pai em Marcos 9: “Eu creio! Ajuda-me na minha falta de fé!”

Como João, nós cremos — e também duvidamos. Nós esperamos — e também reclamamos.  Nós confiamos — e também queremos acelerar o tempo.

Quantas vezes nossa pergunta é a de João: “Jesus, é o Senhor mesmo? O Senhor não está vendo o que estou passando? O Senhor não vai agir?”

Mas é justamente aí que o Evangelho brilha: o Senhor é paciente conosco.

Quando nos arrependemos do nosso desejo de controlar tudo, quando entregamos a Ele nossas dúvidas e cansaço, estamos caminhando no “Caminho da Santidade” anunciado por Isaías.

O caminho pelo qual o Senhor anda

O caminho da fé é sempre o caminho de Cristo:

  • o caminho do arrependimento, da confissão e da cruz;
  • o caminho do perdão e da ressurreição.

João o preparou o caminho. Jesus o trilhou. E agora nos chama a segui-lo.

Nesse caminho Ele não promete facilidade, luxo ou grandeza. Mas promete Sua presença.

Sua presença para nos regar, alimentar, sustentar e perdoar. Sua presença que nos acompanha onde estivermos, até o dia em que estaremos com Ele onde Ele está.

Isso significa que não teremos dúvidas, medos ou perguntas? Claro que teremos. Vivemos ainda numa prisão de pecado e morte — e ali a impaciência sempre tenta nos dominar.

Mas o grande paradoxo cristão é este: embora vivamos neste mundo caído, já fomos libertos do pecado e da morte em Cristo.

Na sua primeira vinda, Jesus venceu tudo isso na cruz. Na segunda vinda, Ele destruirá definitivamente a morte, ressuscitará o Seu povo e enxugará toda lágrima. Então não haverá mais dúvidas. Nem esperas. Nem dor. Haverá apenas vida plena com o nosso Salvador e Rei.

Até lá, a palavra permanece: Sejam pacientes. O Senhor está vindo.

Foi isso que Jesus disse a João. E é isso que Ele diz a nós.

Não importa o que você esteja vivendo. Não importa onde você esteja preso — seja numa situação, num medo, numa dor ou num futuro incerto — você não está sozinho.

O Senhor está vindo. Ele não falhará.

Amém. Vem, Senhor Jesus!

MENSAGEM DO TERCEIRO DOMINGO NO ADVENTO

Textos: Tg 5.7-11; Mt 11.2-11; Is 35.1-10

Pastor Filipe Schneider – 14.12.2025

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