Você já sofreu algum
tipo de comparação? Comparações fazem parte da nossa vida. Às vezes irmãos são
comparados — o que, diga-se de passagem, não é uma coisa muito boa de se fazer.
Pastores também são comparados: pelo jeito de pregar, de conduzir o culto, de
exercer sua liderança na congregação. E muitas vezes nem precisamos que alguém
nos compare. Nós mesmos fazemos isso. Olhamos para outras pessoas e começamos a
medir nossa vida pela vida delas.
Em tempos de redes
sociais isso se tornou ainda mais fácil. Basta rolar a tela do celular por
alguns minutos e parece que todo mundo está muito bem. Pessoas felizes,
famílias felizes, viagens, conquistas, realizações. E então começamos a
comparar: estilo de vida, situação financeira, aparência, família, sucesso,
reconhecimento. Nós gostamos de medir. Gostamos de comparar. E, de um jeito ou
de outro, acabamos estabelecendo quem parece ser mais importante.
No Evangelho de hoje,
os discípulos fazem exatamente isso. Eles levam o jogo da comparação para
dentro do Reino de Deus. Eles se aproximam de Jesus e perguntam: “Quem é o
mais importante no Reino do Céu?” É uma pergunta ruim. Porque eles estão
jogando o jogo da comparação, da competição, da disputa por posição diante de
Jesus. Não sabemos exatamente quais critérios eles tinham em mente. Talvez o
mais importante fosse aquele que desfrutava de maior proximidade com Jesus.
Talvez aquele que tivesse realizado coisas mais impressionantes em nome dele.
Afinal, Jesus já havia enviado os Doze e lhes dado autoridade para fazer coisas
extraordinárias. Não sabemos. O que sabemos é que eles estavam tentando
descobrir quem estava acima de quem. Mas Jesus não está interessado nesse jogo.
Ele não vai permitir que seus discípulos simplesmente transportem para o Reino
de Deus a mesma lógica que governa tantas relações neste mundo.
Então Jesus faz algo
surpreendente. Os discípulos querem saber quem é o mais importante no Reino
dos Céus. Talvez esperassem que Jesus apontasse para alguém. Talvez
imaginassem que ele falaria de fidelidade, conhecimento, liderança, algum tipo
de grandeza espiritual. Mas Jesus chama uma criança, coloca-a no meio deles e
diz: Eu afirmo a vocês que isto é verdade: se
vocês não mudarem de vida e não ficarem iguais às crianças, nunca entrarão no
Reino do Céu.
Jesus literalmente
coloca o entendimento dos discípulos de ponta cabeça. Ele quebra os seus
paradigmas de grandeza. Tentem imaginar a cena. Procure imaginar a reação dos
discípulos tentando reorganizar as suas ideias para se tornarem como crianças.
Você se surpreende
com isso que Jesus disse? Se não te surpreende, então você provavelmente está
pensando como um cidadão do século 21. Nos dias de hoje, pensa-se que as
crianças são, de alguma forma, até mesmo modelos positivos para os adultos.
Mas, se você pudesse voltar no tempo e dizer isso para um palestino do primeiro
século, ele provavelmente diria a você que essa era a coisa mais estúpida que
ele já ouviu.
O que são as crianças
no mundo antigo? Elas são fracas. Elas têm pouco ou nenhum status social ou
influência. As crianças não entendem, é por isso que elas precisam ser
ensinadas. As crianças não têm poder e não podem cuidar de si mesmas. E elas
não são sábias. É por isso que o profeta Isaías, no terceiro capítulo de sua
profecia, pode descrever o julgamento divino contra a nação de Judá, sugerindo
que os seus filhos se tornariam seus governantes. As crianças não são capazes;
não podem sustentar-se, elas dependem totalmente dos cuidados de outras
pessoas. Em outras palavras, as crianças são pequenas e não grandes.
Se os discípulos de
Jesus querem ficar sob a bênção de Deus, então eles precisam entender isso.
Precisam acabar com as comparações; acabar com a competição. Deixar de lado o
status, deixar de lado qualquer tipo de credencial e serem filhos carentes e
totalmente dependentes.
A esses pertence o
reino de Deus. Se você se aproximar de Jesus com algo em suas mãos, você será
mandado embora vazio. Se vier a ele com nada a oferecer, como uma criança,
então você entrará e receberá tudo o que ele tem para dar.
Agora, vamos trazer
essa reflexão para nós, em nossa vida cristã, em nossa vida em comunidade. Porque
nós podemos jogar exatamente o mesmo jogo dentro da igreja. Quais são os nossos
critérios? Quem consideramos importante? Talvez aquele que conhece mais a
Bíblia. Talvez aquele que tem mais facilidade para falar da sua fé. Talvez
aquele que ora melhor, que possui mais dons e habilidades, que canta bem, que
toca um instrumento, que participa de tudo. Talvez consideremos importante
aquele cuja vida parece estar em ordem: estabilidade financeira, família
estruturada, poucos problemas aparentes.
Escolha o seu
medidor favorito. Jesus derruba todos eles.
Ele chama você para
ser criança. Isso não significa que você é inocente. Significa justamente o
contrário: significa reconhecer que você é carente, pequeno e completamente
dependente dele. Diante de Jesus, eu não tenho uma lista de realizações para
apresentar. Eu não tenho como demonstrar que mereço estar aqui. Eu simplesmente
digo: Eu não posso. Eu não posso consertar a mim mesmo. Eu não posso
fazer o pecado desaparecer. Eu não posso produzir em mim um coração puro. Eu
não posso apagar aquilo que fiz. Eu não posso salvar a mim mesmo. Eu preciso
de Jesus.
Preciso dele para me
dar um novo coração. Preciso dele para me ensinar a perdoar aqueles que pecam
contra mim. Preciso dele porque meus olhos, minhas mãos e meus pés tantas vezes
me levam ao pecado. Preciso dele porque eu mesmo tantas vezes me torno uma pedra
de tropeço para outras pessoas. Eu preciso de Jesus.
E é aqui que o Salmo
que cantamos hoje nos ajuda a entender o que significa ser pequeno diante de
Deus. Davi não encontra felicidade escondendo seu pecado ou tentando resolvê-lo
sozinho. A felicidade está em receber aquilo que somente Deus pode dar: Feliz
aquele cujas maldades Deus perdoa e cujos pecados ele apaga! Mais
adiante ele conta que tentou esconder seu pecado. Não funcionou. Até que
finalmente o confessou. E então descobriu o que Deus faz com pecadores que nada
têm para apresentar: Deus perdoa. É assim que uma criança vive diante do Pai.
Com as mãos vazias. E essas mãos vazias recebem tudo.
Embora eu seja
pecador, Jesus derramou seu sangue por mim. Ele morreu para que eu pudesse
viver. Ele ressuscitou e vive para que a morte não tenha a palavra final sobre
mim. Eu sou dele e ele é meu. É isso que muda completamente a pergunta dos
discípulos. Porque agora Jesus pode voltar à pergunta: Quem é o mais
importante?
Jesus diz: A pessoa mais importante no Reino do Céu é aquela que se
humilha e fica igual a esta criança. Perceba a inversão. O mais
importante é aquele que precisa. O mais importante é o pequeno. O mais
importante é o necessitado. O mais importante é aquele que depende. Jesus veio
para pessoas assim. Pessoas como você e eu. Pessoas que precisam ser perdoadas,
carregadas, protegidas e salvas.
E isso transforma
também o nosso jeito de olhar uns para os outros dentro da igreja. Se Cristo
coloca o pequeno no centro, então quem precisa de cuidado não pode ficar à
margem da nossa comunidade. O irmão que está atravessando uma necessidade
profunda é importante. Cuidemos dele. Aquele que está vivendo uma tristeza
profunda é importante. Cuidemos dele. Aquele cuja fé está enfraquecida é
importante. Não coloquemos uma pedra de tropeço em seu caminho. Aquele que está
sendo enganado pela tentação e pelo pecado é importante. E aquele que se
desviou do caminho, que está se afastando de Cristo e da comunhão da Igreja,
também é importante. Vamos atrás dele.
É por isso que, logo
depois, Jesus conta sobre a ovelha que se perde. Um pastor possui cem ovelhas e
uma delas se perde. O que ele faz? Ele vai procurá-la. Por quê? Porque
aquela uma importa. E Jesus diz que o Pai do céu também não quer que nenhum destes pequeninos se perca.
Agora começamos a
perceber que todo este capítulo está ligado. A criança colocada no meio dos
discípulos. O pequenino que não deve ser levado a pecar. A ovelha que se perde.
O irmão que precisa ser procurado. É sempre a mesma lógica. O Reino de Deus
não pergunta quem merece mais atenção. O Reino olha para quem mais precisa
dela.
E isso nos ajuda a
compreender também uma parte do Evangelho que às vezes parece dura. Jesus diz:
se o seu irmão pecar contra você, vá falar com ele. Por que ir? Por que não
simplesmente deixá-lo em paz? Por que não pensar: “A vida é dele; ele sabe o
que está fazendo”? Porque ele é seu irmão. Porque ele é precioso para Cristo.
Porque o Pai não quer que nenhum desses pequeninos se perca.
É exatamente o que
ouvimos hoje também no profeta Ezequiel. Deus coloca o profeta como uma
sentinela. Se ele vê o perigo chegando, não pode permanecer calado. Ele precisa
advertir. E isso nos ensina algo muito importante sobre o amor cristão: cuidar
de alguém nem sempre significa dizer aquilo que essa pessoa gostaria de ouvir.
Às vezes amar significa consolar. Às vezes amar significa carregar. Às vezes
amar significa perdoar. E às vezes amar significa procurar um irmão e dizer: “Eu
estou preocupado com você. O caminho que você está seguindo está afastando você
de Cristo.”
Não para vencê-lo.
Não para humilhá-lo. Não para provar que somos melhores. Mas justamente porque
não somos melhores. Somos crianças falando com outra criança. Somos
pecadores falando com outro pecador. Somos ovelhas que foram encontradas por
Cristo indo atrás de outra ovelha que está se perdendo.
É por isso que Paulo
diz na leitura de hoje que quem ama os outros está obedecendo à lei. O amor
não abandona o irmão. E qual é o objetivo de procurar aquele que pecou? O
Salmo 32 nos mostrou. Confissão. Perdão. Restauração. Que aquele que se afastou
possa novamente ouvir aquilo de que todos nós precisamos: seus pecados são
perdoados. Cristo morreu por você. Cristo quer você consigo.
Por isso Jesus fala
também da igreja. Se o irmão não ouvir você, leve uma ou duas pessoas. Se ainda
não ouvir, conte à igreja. Perceba quanto esforço! Jesus não está ensinando uma
técnica para nos livrarmos de pessoas difíceis. É justamente o contrário. Jesus
está mostrando até onde vai o amor que se recusa a desistir de uma pessoa. Porque
foi assim que ele nos amou.
Talvez hoje seja você
quem precisa ser carregado. Talvez hoje uma tristeza, uma perda, uma culpa, uma
tentação ou algum medo façam de você aquele que mais precisa de cuidado. Amanhã
será outra pessoa. E aqui está a inversão do Reino de Deus. Começamos perguntando:
Quem é o mais importante? Jesus muda a nossa pergunta. Em vez de olhar
ao redor e perguntar: “Quem aqui é mais importante do que eu?”, ele nos ensina
a perguntar: “Quem aqui está precisando de mim?”
Mas existe ainda uma
pergunta anterior a essa: Quem veio atrás de mim quando eu estava perdido?
Jesus. Quando eu não podia chegar até ele, ele veio até mim. Quando eu não
podia apagar meu pecado, ele o levou sobre si. Quando eu não podia salvar a mim
mesmo, ele morreu por mim. Quando eu nada tinha para oferecer, ele me deu tudo.
Perdão. Vida. Salvação.
Para aqueles que
querem competir e comparar, Jesus não oferece um lugar no pódio. Ele coloca uma
criança no meio deles. E diz: olhem para ela. É assim que vocês estão diante de
Deus. Pequenos. Necessitados. Dependentes. Mas amados. Amados por aquele
que procura a ovelha perdida. Amados por aquele que perdoa o pecador. Amados
por aquele que morreu e ressuscitou por nós.
E, tendo sido
encontrados, perdoados, cuidados e amparados por Jesus, nós nos voltamos para
aquele que está ao nosso lado. Para o pequeno. Para o ferido. Para o pecador.
Para aquele que está se afastando. Para aquele que precisa. Porque, no Reino
de Cristo, o mais importante é aquele que precisa ser amado. E nós podemos
amá-lo porque Cristo nos amou primeiro.
Amém.
