Quem é o mais importante?

Quem é o mais importante?

Você já sofreu algum tipo de comparação? Comparações fazem parte da nossa vida. Às vezes irmãos são comparados — o que, diga-se de passagem, não é uma coisa muito boa de se fazer. Pastores também são comparados: pelo jeito de pregar, de conduzir o culto, de exercer sua liderança na congregação. E muitas vezes nem precisamos que alguém nos compare. Nós mesmos fazemos isso. Olhamos para outras pessoas e começamos a medir nossa vida pela vida delas.

Em tempos de redes sociais isso se tornou ainda mais fácil. Basta rolar a tela do celular por alguns minutos e parece que todo mundo está muito bem. Pessoas felizes, famílias felizes, viagens, conquistas, realizações. E então começamos a comparar: estilo de vida, situação financeira, aparência, família, sucesso, reconhecimento. Nós gostamos de medir. Gostamos de comparar. E, de um jeito ou de outro, acabamos estabelecendo quem parece ser mais importante.

No Evangelho de hoje, os discípulos fazem exatamente isso. Eles levam o jogo da comparação para dentro do Reino de Deus. Eles se aproximam de Jesus e perguntam: “Quem é o mais importante no Reino do Céu?” É uma pergunta ruim. Porque eles estão jogando o jogo da comparação, da competição, da disputa por posição diante de Jesus. Não sabemos exatamente quais critérios eles tinham em mente. Talvez o mais importante fosse aquele que desfrutava de maior proximidade com Jesus. Talvez aquele que tivesse realizado coisas mais impressionantes em nome dele. Afinal, Jesus já havia enviado os Doze e lhes dado autoridade para fazer coisas extraordinárias. Não sabemos. O que sabemos é que eles estavam tentando descobrir quem estava acima de quem. Mas Jesus não está interessado nesse jogo. Ele não vai permitir que seus discípulos simplesmente transportem para o Reino de Deus a mesma lógica que governa tantas relações neste mundo.

Então Jesus faz algo surpreendente. Os discípulos querem saber quem é o mais importante no Reino dos Céus. Talvez esperassem que Jesus apontasse para alguém. Talvez imaginassem que ele falaria de fidelidade, conhecimento, liderança, algum tipo de grandeza espiritual. Mas Jesus chama uma criança, coloca-a no meio deles e diz: Eu afirmo a vocês que isto é verdade: se vocês não mudarem de vida e não ficarem iguais às crianças, nunca entrarão no Reino do Céu.

Jesus literalmente coloca o entendimento dos discípulos de ponta cabeça. Ele quebra os seus paradigmas de grandeza. Tentem imaginar a cena. Procure imaginar a reação dos discípulos tentando reorganizar as suas ideias para se tornarem como crianças.

Você se surpreende com isso que Jesus disse? Se não te surpreende, então você provavelmente está pensando como um cidadão do século 21. Nos dias de hoje, pensa-se que as crianças são, de alguma forma, até mesmo modelos positivos para os adultos. Mas, se você pudesse voltar no tempo e dizer isso para um palestino do primeiro século, ele provavelmente diria a você que essa era a coisa mais estúpida que ele já ouviu.

O que são as crianças no mundo antigo? Elas são fracas. Elas têm pouco ou nenhum status social ou influência. As crianças não entendem, é por isso que elas precisam ser ensinadas. As crianças não têm poder e não podem cuidar de si mesmas. E elas não são sábias. É por isso que o profeta Isaías, no terceiro capítulo de sua profecia, pode descrever o julgamento divino contra a nação de Judá, sugerindo que os seus filhos se tornariam seus governantes. As crianças não são capazes; não podem sustentar-se, elas dependem totalmente dos cuidados de outras pessoas. Em outras palavras, as crianças são pequenas e não grandes.

Se os discípulos de Jesus querem ficar sob a bênção de Deus, então eles precisam entender isso. Precisam acabar com as comparações; acabar com a competição. Deixar de lado o status, deixar de lado qualquer tipo de credencial e serem filhos carentes e totalmente dependentes.

A esses pertence o reino de Deus. Se você se aproximar de Jesus com algo em suas mãos, você será mandado embora vazio. Se vier a ele com nada a oferecer, como uma criança, então você entrará e receberá tudo o que ele tem para dar.

Agora, vamos trazer essa reflexão para nós, em nossa vida cristã, em nossa vida em comunidade. Porque nós podemos jogar exatamente o mesmo jogo dentro da igreja. Quais são os nossos critérios? Quem consideramos importante? Talvez aquele que conhece mais a Bíblia. Talvez aquele que tem mais facilidade para falar da sua fé. Talvez aquele que ora melhor, que possui mais dons e habilidades, que canta bem, que toca um instrumento, que participa de tudo. Talvez consideremos importante aquele cuja vida parece estar em ordem: estabilidade financeira, família estruturada, poucos problemas aparentes.

Escolha o seu medidor favorito. Jesus derruba todos eles.

Ele chama você para ser criança. Isso não significa que você é inocente. Significa justamente o contrário: significa reconhecer que você é carente, pequeno e completamente dependente dele. Diante de Jesus, eu não tenho uma lista de realizações para apresentar. Eu não tenho como demonstrar que mereço estar aqui. Eu simplesmente digo: Eu não posso. Eu não posso consertar a mim mesmo. Eu não posso fazer o pecado desaparecer. Eu não posso produzir em mim um coração puro. Eu não posso apagar aquilo que fiz. Eu não posso salvar a mim mesmo. Eu preciso de Jesus.

Preciso dele para me dar um novo coração. Preciso dele para me ensinar a perdoar aqueles que pecam contra mim. Preciso dele porque meus olhos, minhas mãos e meus pés tantas vezes me levam ao pecado. Preciso dele porque eu mesmo tantas vezes me torno uma pedra de tropeço para outras pessoas. Eu preciso de Jesus.

E é aqui que o Salmo que cantamos hoje nos ajuda a entender o que significa ser pequeno diante de Deus. Davi não encontra felicidade escondendo seu pecado ou tentando resolvê-lo sozinho. A felicidade está em receber aquilo que somente Deus pode dar: Feliz aquele cujas maldades Deus perdoa e cujos pecados ele apaga! Mais adiante ele conta que tentou esconder seu pecado. Não funcionou. Até que finalmente o confessou. E então descobriu o que Deus faz com pecadores que nada têm para apresentar: Deus perdoa. É assim que uma criança vive diante do Pai. Com as mãos vazias. E essas mãos vazias recebem tudo.

Embora eu seja pecador, Jesus derramou seu sangue por mim. Ele morreu para que eu pudesse viver. Ele ressuscitou e vive para que a morte não tenha a palavra final sobre mim. Eu sou dele e ele é meu. É isso que muda completamente a pergunta dos discípulos. Porque agora Jesus pode voltar à pergunta: Quem é o mais importante?

Jesus diz: A pessoa mais importante no Reino do Céu é aquela que se humilha e fica igual a esta criança. Perceba a inversão. O mais importante é aquele que precisa. O mais importante é o pequeno. O mais importante é o necessitado. O mais importante é aquele que depende. Jesus veio para pessoas assim. Pessoas como você e eu. Pessoas que precisam ser perdoadas, carregadas, protegidas e salvas.

E isso transforma também o nosso jeito de olhar uns para os outros dentro da igreja. Se Cristo coloca o pequeno no centro, então quem precisa de cuidado não pode ficar à margem da nossa comunidade. O irmão que está atravessando uma necessidade profunda é importante. Cuidemos dele. Aquele que está vivendo uma tristeza profunda é importante. Cuidemos dele. Aquele cuja fé está enfraquecida é importante. Não coloquemos uma pedra de tropeço em seu caminho. Aquele que está sendo enganado pela tentação e pelo pecado é importante. E aquele que se desviou do caminho, que está se afastando de Cristo e da comunhão da Igreja, também é importante. Vamos atrás dele.

É por isso que, logo depois, Jesus conta sobre a ovelha que se perde. Um pastor possui cem ovelhas e uma delas se perde. O que ele faz? Ele vai procurá-la. Por quê? Porque aquela uma importa. E Jesus diz que o Pai do céu também não quer que nenhum destes pequeninos se perca.

Agora começamos a perceber que todo este capítulo está ligado. A criança colocada no meio dos discípulos. O pequenino que não deve ser levado a pecar. A ovelha que se perde. O irmão que precisa ser procurado. É sempre a mesma lógica. O Reino de Deus não pergunta quem merece mais atenção. O Reino olha para quem mais precisa dela.

E isso nos ajuda a compreender também uma parte do Evangelho que às vezes parece dura. Jesus diz: se o seu irmão pecar contra você, vá falar com ele. Por que ir? Por que não simplesmente deixá-lo em paz? Por que não pensar: “A vida é dele; ele sabe o que está fazendo”? Porque ele é seu irmão. Porque ele é precioso para Cristo. Porque o Pai não quer que nenhum desses pequeninos se perca.

É exatamente o que ouvimos hoje também no profeta Ezequiel. Deus coloca o profeta como uma sentinela. Se ele vê o perigo chegando, não pode permanecer calado. Ele precisa advertir. E isso nos ensina algo muito importante sobre o amor cristão: cuidar de alguém nem sempre significa dizer aquilo que essa pessoa gostaria de ouvir. Às vezes amar significa consolar. Às vezes amar significa carregar. Às vezes amar significa perdoar. E às vezes amar significa procurar um irmão e dizer: “Eu estou preocupado com você. O caminho que você está seguindo está afastando você de Cristo.”

Não para vencê-lo. Não para humilhá-lo. Não para provar que somos melhores. Mas justamente porque não somos melhores. Somos crianças falando com outra criança. Somos pecadores falando com outro pecador. Somos ovelhas que foram encontradas por Cristo indo atrás de outra ovelha que está se perdendo.

É por isso que Paulo diz na leitura de hoje que quem ama os outros está obedecendo à lei. O amor não abandona o irmão. E qual é o objetivo de procurar aquele que pecou? O Salmo 32 nos mostrou. Confissão. Perdão. Restauração. Que aquele que se afastou possa novamente ouvir aquilo de que todos nós precisamos: seus pecados são perdoados. Cristo morreu por você. Cristo quer você consigo.

Por isso Jesus fala também da igreja. Se o irmão não ouvir você, leve uma ou duas pessoas. Se ainda não ouvir, conte à igreja. Perceba quanto esforço! Jesus não está ensinando uma técnica para nos livrarmos de pessoas difíceis. É justamente o contrário. Jesus está mostrando até onde vai o amor que se recusa a desistir de uma pessoa. Porque foi assim que ele nos amou.

Talvez hoje seja você quem precisa ser carregado. Talvez hoje uma tristeza, uma perda, uma culpa, uma tentação ou algum medo façam de você aquele que mais precisa de cuidado. Amanhã será outra pessoa. E aqui está a inversão do Reino de Deus. Começamos perguntando: Quem é o mais importante? Jesus muda a nossa pergunta. Em vez de olhar ao redor e perguntar: “Quem aqui é mais importante do que eu?”, ele nos ensina a perguntar: “Quem aqui está precisando de mim?”

Mas existe ainda uma pergunta anterior a essa: Quem veio atrás de mim quando eu estava perdido? Jesus. Quando eu não podia chegar até ele, ele veio até mim. Quando eu não podia apagar meu pecado, ele o levou sobre si. Quando eu não podia salvar a mim mesmo, ele morreu por mim. Quando eu nada tinha para oferecer, ele me deu tudo. Perdão. Vida. Salvação.

Para aqueles que querem competir e comparar, Jesus não oferece um lugar no pódio. Ele coloca uma criança no meio deles. E diz: olhem para ela. É assim que vocês estão diante de Deus. Pequenos. Necessitados. Dependentes. Mas amados. Amados por aquele que procura a ovelha perdida. Amados por aquele que perdoa o pecador. Amados por aquele que morreu e ressuscitou por nós.

E, tendo sido encontrados, perdoados, cuidados e amparados por Jesus, nós nos voltamos para aquele que está ao nosso lado. Para o pequeno. Para o ferido. Para o pecador. Para aquele que está se afastando. Para aquele que precisa. Porque, no Reino de Cristo, o mais importante é aquele que precisa ser amado. E nós podemos amá-lo porque Cristo nos amou primeiro.

Amém.


MENSAGEM DO 15º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

Textos: Sl 32.1-7; Ez 33.7-9; Rm 13.1-10 e Mateus 18.1-20

Pastor Filipe Schneider – 06.09.2026

Editais de convocação para Assembleias da Comunidade Evangélica Luterana de Nova Odessa, em agosto de 2026

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Convocação para definição do formato da eleição da próxima diretoria da Comunidade Evangélica Luterana de Nova Odessa, em agosto de 2026.
Convocação para definição do formato da eleição da próxima diretoria da Comunidade Evangélica Luterana de Nova Odessa, em agosto de 2026.

Convocação para a eleição da próxima diretoria da Comunidade Evangélica Luterana de Nova Odessa, em agosto de 2026.
Convocação para a eleição da próxima diretoria da Comunidade Evangélica Luterana de Nova Odessa, em agosto de 2026.

Convocação para registro de chapas para a eleição da próxima diretoria da Comunidade Evangélica Luterana de Nova Odessa, em agosto de 2026.
Convocação para registro de chapas para a eleição da próxima diretoria da Comunidade Evangélica Luterana de Nova Odessa, em agosto de 2026.

O contador e o Salvador

O contador e o Salvador

Você já parou para pensar na importância das contas em nosso mundo? É uma das primeiras coisas que aprendemos na escola. E, quando crescemos, continuamos contando o tempo todo. Contamos dinheiro, calorias, os dias que faltam para uma ocasião especial, o troco que recebemos. Na verdade, contamos tantas coisas ao longo da vida que nem percebemos o quanto estamos contando.

Os números fazem parte do nosso dia a dia. E o curioso é que essa mania de contar não fica apenas nas coisas materiais. Muitas vezes também fazemos contas espirituais. Contamos nossos acertos e erros, nossos sucessos e fracassos. E, sem perceber, imaginamos que Deus esteja fazendo as mesmas contas que nós fazemos.

No Evangelho de hoje encontramos dois personagens muito diferentes. De um lado, Mateus, o contador. Um homem acostumado a trabalhar com dívidas e contas. Do outro lado, Jesus, o Salvador. Aquele que veio não para cobrar dívidas, mas para perdoá-las.

Mateus era um homem acostumado a contar. Ele era cobrador de impostos. Todos os dias lidava com números, dívidas e dinheiro. Sabia exatamente quanto as pessoas deviam, quanto deveria ser entregue aos romanos e quanto ficaria para ele. Mas naquele dia o especialista em contas receberia uma lição sobre a forma como Deus conta.

Jesus passou por ele e disse: Venha comigo (Mt 9.9). E Mateus se levantou e o seguiu.

É uma cena impressionante. Porque Mateus certamente tinha motivos para ficar onde estava. Possuía um emprego lucrativo, tinha estabilidade financeira e uma vida organizada. E mais do que isso: era um homem que sabia muito bem quem era aos olhos das outras pessoas. Ele era considerado pecador.

Na época, os cobradores de impostos estavam entre as pessoas mais desprezadas da sociedade. Eram vistos como traidores, exploradores e indignos. Por isso, é possível imaginar as perguntas que passavam por sua cabeça: Por que Jesus chamaria alguém como eu? Por que escolher justamente um pecador? Por que abandonar tudo para segui-lo?

Pelas contas humanas, nada disso fazia sentido. Mas Mateus se levantou e seguiu Jesus.

Para entender o que aconteceu ali, precisamos perceber algo importante: Deus conta de maneira diferente da nossa.

Nós costumamos imaginar que Deus está fazendo uma contabilidade da nossa vida. Colocamos nossos pecados de um lado e nossas boas obras do outro. E esperamos que, no final, o lado positivo seja maior. Mas Deus não usa esse critério.

Na leitura de Oséias ouvimos Deus dizer:

Eu quero que me amem e não que me ofereçam sacrifícios; em vez de me trazer ofertas queimadas, eu prefiro que o meu povo me obedeça. (Os 6.6)

O povo de Israel havia começado a acreditar que a quantidade de sacrifícios era o mais importante. Mas Deus deixa claro que não era isso que ele procurava. O que ele desejava era fé, confiança, amor e conhecimento dele. Deus não estava impressionado pelos números.

E talvez nós não sejamos tão diferentes daquele povo. Também podemos cair na tentação de pensar que Deus se impressiona com números: quantas vezes viemos ao culto, quantas ofertas entregamos, quantas atividades realizamos ou quantas boas ações acumulamos. Nenhuma dessas coisas é ruim. Mas nenhuma delas pode ocupar o lugar da fé. O problema começa quando passamos a acreditar que elas nos tornam aceitáveis diante de Deus.

É justamente aí que a leitura de Romanos nos ajuda. Ali Paulo nos mostra o que realmente conta diante de Deus. Não são muitas coisas. É uma só:

Por isso Abraão, por meio da fé, “foi aceito por Deus.” (Rm 4.22)

Abraão não foi salvo porque realizou obras suficientes. Não foi salvo porque suas virtudes superaram seus pecados. Foi salvo pela fé.

E aqui encontramos uma das maiores mentiras que Satanás conta ao mundo: a ideia de que podemos conquistar a aceitação de Deus através do nosso desempenho. Essa mentira produz dois resultados.

Alguns se tornam orgulhosos. Olham para sua vida e concluem que estão indo muito bem diante de Deus.

Outros se tornam desesperados. Olham para seus pecados e concluem que jamais serão aceitos por ele.

Mas tanto o orgulho quanto o desespero nascem da mesma ilusão: a ideia de que nossa relação com Deus depende daquilo que fazemos. O arrependimento começa quando abandonamos essa falsa contabilidade, quando reconhecemos que não podemos nos justificar diante de Deus.

Então ouvimos a boa notícia do Evangelho. Pela fé, os pecados de Abraão foram apagados pelo sangue de Cristo. E pela mesma fé, a justiça de Cristo foi creditada a ele. Por isso Paulo escreve que Jesus foi entregue à morte por causa dos nossos pecados e foi ressuscitado para que fôssemos aceitos por Deus. (Rm 4.25)

Essa é a grande troca realizada por Cristo. Ele assume nossa culpa e nos concede sua justiça. Não apenas para Abraão, mas também para nós.

Paulo escreve:

Essas palavras: ‘Ele foi aceito por Deus’ não foram escritas somente por causa de Abraão. Foram escritas também por nossa causa. (Rm 4.23-24)

Portanto, aquilo que contou para Abraão continua contando para nós: a fé. Fé em Jesus Cristo. Fé naquele que morreu pelos nossos pecados. Fé naquele que ressuscitou para nossa justificação.

É por isso que a principal tarefa da Igreja não é ensinar uma lista de regras. A principal tarefa da Igreja é entregar Cristo aos pecadores. Porque é pela fé que recebemos os benefícios da sua obra.

E é exatamente isso que acontece no culto. No Batismo, Deus não avalia méritos. Ele concede graça. Na absolvição, Deus não faz um balanço dos nossos acertos e erros. Ele anuncia o perdão conquistado por Cristo. Na Santa Ceia, Deus não pergunta quantos pontos acumulamos durante a semana. Ele nos entrega novamente o corpo e o sangue de Jesus para o fortalecimento da fé.

É assim que Deus continua dando, alimentando e fortalecendo a fé.

E então acontece algo importante. As boas obras continuam existindo. Continuamos lutando contra o pecado. Continuamos procurando viver de acordo com a vontade de Deus. Mas já não fazemos isso para conquistar o favor divino. Fazemos isso porque Cristo já nos alcançou com sua graça.

Esta continua sendo a mensagem que o mundo tem dificuldade de aceitar. Porque o mundo mede as pessoas por desempenho, por resultados e por merecimento. Mas Deus conta de maneira diferente.

Ele chama pecadores. Ele acolhe pessoas com histórias complicadas. Ele perdoa aqueles que não conseguem apagar seus próprios erros. Foi isso que escandalizou os fariseus. E continua escandalizando o orgulho humano ainda hoje.

Por que Jesus chamaria Mateus? Por que se sentaria à mesa com pecadores? Por que acolheria gente que tem tanto a corrigir na vida?

A resposta é simples: Porque foi exatamente para pessoas assim que ele veio. Jesus declarou: Porque eu vim para chamar os pecadores e não os bons. (Mt 9.13)

Porque diante de Jesus ninguém é apenas a soma dos seus erros. E isso inclui Mateus. Isso inclui você. Isso inclui a mim.

Mateus passava seus dias calculando dívidas. Jesus passou os seus dias caminhando em direção à cruz para pagá-las.

Deus conta de maneira diferente da nossa. Foi Cristo quem veio do céu para nos encontrar. Foi Cristo quem assumiu a dívida dos nossos pecados. Foi Cristo quem acertou a conta na cruz. Foi Cristo quem ressuscitou para nos dar sua justiça. E agora ele continua chamando pecadores e concedendo seus dons: fé, perdão, vida e salvação.

Recebendo esses dons, deixamos de confiar em nossas próprias contas e passamos a confiar em Cristo. E então acontece o mesmo que aconteceu com Mateus: arrependemo-nos, levantamo-nos e seguimos Jesus. Amém.

MENSAGEM DO 2º DOMINGO APÓS PENTECOSTES

Textos: Mateus 9.9-13; Os 5.15-6.6 e Rm 4.13-25

Pastor Filipe Schneider – 07.06.2026

Nota do editor:

Você já sofreu com pedras nos rins? Algumas pessoas falam em cálculos renais. De fato, pedra e cálculo são sinônimos, ao menos na origem dos termos.

Fazer contas é sinônimo de calcular, até hoje. Antigamente, fazer contas era literalmente contar pedras. Esse costume faz parte do princípio da relação dos humanos com a matemática. No Japão, tal prática é preservada por meio do Soroban, uma espécie de ábaco em forma de moldura retangular com várias hastes, nas quais se deslizam pequenas peças (também conhecidas como contas ou pedrinhas) que auxiliam o usuário em somas simples e até para encontrar 
raízes quadradas.

Não por acaso, Pitágoras, aquele mesmo do teorema, compreendia que os números estavam na origem e na substância de todas as coisas, relacionando a matemática com uma ordem divina.

Jesus foi denominado em textos sagrados como "a pedra angular", aquela que ordena toda a base e alinhamento de uma grande edificação. Assim, a rocha forte está associada à confiança, um conceito de grande significado para a fé e também para as finanças.

Não existe transação financeira sem o princípio da confiança, onde as partes envolvidas precisam acreditar umas nas outras. Por isso, quando se fala que determinada pessoa ou instituição tem crédito na praça, estão afirmando que essa pessoa ou instituição é digna de confiança, de fé pública.

Logo, estudar a matemática e cuidar das contas da casa, por exemplo, não é coisa de gente meramente materialista, mas daqueles que compreendem que corpo e espírito são interdependentes e amalgamados, ao menos nesta realidade mundana.

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Sejam pacientes

Sejam pacientes

Você costuma ser paciente ou impaciente? Ao que tudo indica, vivemos numa época que nos treinou para o imediatismo. Acabou o tempo de escrever cartas e esperar semanas por uma resposta. Hoje esperamos que tudo seja rápido. Imediato. Até aqueles seis segundos de anúncio no YouTube parecem longos demais.

E, no entanto, a palavra que mais se destaca na Epístola de hoje — paciência — parece totalmente fora de sintonia com nosso modo de vida. Tiago repete esse termo quatro vezes, em quatro versículos diferentes. Apontando, com isso, como a paciência se faz necessária. Nesta época do ano, com corrida por compras, compromissos, festas e férias, nossa impaciência só aumenta. E é nesse contexto que Deus nos chama à paciência.

Mas o que há por trás disso? Por que alguns parecem esperar com mais serenidade do que outros? Será que paciência é apenas um traço de personalidade?

Ou será que, quando falamos de paciência diante de Deus, estamos falando, na verdade, de controle? Quando ficamos impacientes com Ele, não seria porque desejamos dirigir os acontecimentos? Controlar o tempo, o modo das coisas e o resultado?

Se for assim, então o chamado divino à paciência é também um chamado ao arrependimento: a abrir mão do controle, deixar Deus ser Deus e colocar nossas circunstâncias — todas elas — em Suas mãos.

João Batista: do deserto à prisão

O Evangelho de hoje nos leva novamente a João Batista, mas numa situação muito diferente daquela do domingo passado. Antes o vimos pregando com força, chamando ao arrependimento, anunciando o Reino e preparando o caminho do Senhor. Havia movimento, expectativa, resultados.

Agora, João está preso. Herodes se cansou de sua pregação e o colocou no cárcere.

E é dali, da prisão, que João envia sua famosa pergunta a Jesus: “O senhor é aquele que ia chegar ou devemos esperar outro?”

Percebe a tensão por trás disso? João talvez pensasse: “Se Jesus é o Messias, por que não faz nada? Por que me deixa aqui? Ele não vai me libertar?”

É a pergunta de quem sofre, de quem está cansado, de quem sente o peso do tempo e das circunstâncias. É a pergunta de quem está perdendo o controle — e sente isso profundamente.

A resposta de Jesus: paciência, João

Jesus responde apontando para os sinais: cegos veem, os coxos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e os pobres recebem o evangelho.

Tudo conforme Isaías havia dito que aconteceria quando o Messias viesse.

Em outras palavras: “Está acontecendo, João. O Reino está avançando. Mas Deus decide quem, quando e como. Deixe Deus ser Deus. E felizes são aqueles que não abandonam a sua fé em mim!

Bem-aventurado quem confia mesmo quando não entende. Quem espera mesmo quando tem perguntas. Quem abre mão do controle e descansa na promessa.

E, depois de responder a João, Jesus o elogia. Fala de sua grandeza. Ou seja: João não está sofrendo porque fez algo errado. Não está sendo punido enquanto outros são curados. Pelo contrário: de todos os homens que já nasceram, João Batista é o maior, declara Jesus.

Aqui aprendemos algo precioso: não podemos medir o favor de Deus pelas aparências externas. Qualquer tentativa de fazer isso é querer retomar o controle. E isso não nos pertence.

Paciência: o caminho do Reino

Tiago ecoa o mesmo chamado: “Sejam pacientes até a vinda do Senhor.”

Há dois caminhos diante de nós:

  1. O caminho da paciência, que é o caminho da fé e da confiança;
  2. O caminho da incredulidade, que tenta controlar tudo, manipular Deus, moldá-lo aos nossos desejos.

O segundo caminho é sedutor. Fala ao nosso coração pecador que quer mandar e decidir. Mas é o caminho da idolatria — colocar o próprio “eu” no trono que pertence ao Senhor.

Por isso nossa oração precisa ser a daquele pai em Marcos 9: “Eu creio! Ajuda-me na minha falta de fé!”

Como João, nós cremos — e também duvidamos. Nós esperamos — e também reclamamos.  Nós confiamos — e também queremos acelerar o tempo.

Quantas vezes nossa pergunta é a de João: “Jesus, é o Senhor mesmo? O Senhor não está vendo o que estou passando? O Senhor não vai agir?”

Mas é justamente aí que o Evangelho brilha: o Senhor é paciente conosco.

Quando nos arrependemos do nosso desejo de controlar tudo, quando entregamos a Ele nossas dúvidas e cansaço, estamos caminhando no “Caminho da Santidade” anunciado por Isaías.

O caminho pelo qual o Senhor anda

O caminho da fé é sempre o caminho de Cristo:

  • o caminho do arrependimento, da confissão e da cruz;
  • o caminho do perdão e da ressurreição.

João o preparou o caminho. Jesus o trilhou. E agora nos chama a segui-lo.

Nesse caminho Ele não promete facilidade, luxo ou grandeza. Mas promete Sua presença.

Sua presença para nos regar, alimentar, sustentar e perdoar. Sua presença que nos acompanha onde estivermos, até o dia em que estaremos com Ele onde Ele está.

Isso significa que não teremos dúvidas, medos ou perguntas? Claro que teremos. Vivemos ainda numa prisão de pecado e morte — e ali a impaciência sempre tenta nos dominar.

Mas o grande paradoxo cristão é este: embora vivamos neste mundo caído, já fomos libertos do pecado e da morte em Cristo.

Na sua primeira vinda, Jesus venceu tudo isso na cruz. Na segunda vinda, Ele destruirá definitivamente a morte, ressuscitará o Seu povo e enxugará toda lágrima. Então não haverá mais dúvidas. Nem esperas. Nem dor. Haverá apenas vida plena com o nosso Salvador e Rei.

Até lá, a palavra permanece: Sejam pacientes. O Senhor está vindo.

Foi isso que Jesus disse a João. E é isso que Ele diz a nós.

Não importa o que você esteja vivendo. Não importa onde você esteja preso — seja numa situação, num medo, numa dor ou num futuro incerto — você não está sozinho.

O Senhor está vindo. Ele não falhará.

Amém. Vem, Senhor Jesus!

MENSAGEM DO TERCEIRO DOMINGO NO ADVENTO

Textos: Tg 5.7-11; Mt 11.2-11; Is 35.1-10

Pastor Filipe Schneider – 14.12.2025

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A Verdadeira Reforma

O Pastor Filipe Schneider profere o sermão do dia 26 de outubro de 2025 na Comunidade Evangélica Luterana de Nova Odessa/SP.
O Pastor Filipe Schneider profere o sermão do dia 26 de outubro de 2025 na Comunidade Evangélica Luterana de Nova Odessa/SP. 

            Hoje celebramos o Dia da Reforma — uma data que, à primeira vista, parece celebrar a vida de um homem.

Um homem que realizou grandes feitos.

Um homem que não se preocupava muito em ser politicamente correto.

Um homem que ensinava de um modo diferente dos mestres de sua época.

Um homem determinado, focado em sua missão.

Um homem preso por causa de seus ensinamentos.

Um homem odiado por muitos, traído até por amigos.

Um homem cuja vida ainda impacta a sua e a minha.

E esse homem é Jesus Cristo.

Ah, você pensou que eu estava falando de Lutero?

Não me entenda mal! Damos graças a Deus por Martinho Lutero e por tudo o que o Senhor realizou por meio dele. Ele foi, sem dúvida, uma figura central na Reforma.

Mas a Reforma não é sobre ele.

Como um pregador já disse certa vez: “Lutero apenas varreu as teias de aranha que encobriam o crucifixo.” Ele recolocou Cristo e este crucificado no centro da pregação da Igreja. Porque, por incrível que pareça, às vezes a Igreja se desvia de seu caminho.

E então precisamos ser lembrados do motivo de estarmos aqui e do que realmente importa: Cristo e este crucificado.

Assim, a Reforma é, sim, um evento histórico — mas não apenas o que aconteceu há cerca de 500 anos, em Wittenberg. A verdadeira Reforma aconteceu há mais de 2.000 anos, no Calvário.

Os cravos que prenderam as 95 Teses de Lutero nas portas da igreja do castelo foram importantes. Mas os cravos que perfuraram as mãos e os pés de Jesus, fixando-o na cruz, foram infinitamente mais.

É na cruz que ocorre a verdadeira Reforma: a reforma do coração, quando o Espírito enviado por Jesus transforma pecadores em santos, moldando-nos novamente à imagem de Cristo.

E assim como o povo do tempo de Jeremias, o povo dos dias de Jesus e o povo dos dias de Lutero, também nós precisamos ser reformados.

Porque o pecado está sempre nos deformando.

O mundo está sempre tentando nos conformar à sua maneira.

E somos constantemente informados por aquilo que não é verdade.

E hoje, neste culto em que celebramos a Reforma, três jovens estão sendo confirmados. Essa palavra “confirmar” vem do latim confirmare, que significa tornar firme, fortalecer. E é exatamente isso que Deus faz conosco por meio da Sua Palavra e do Seu Espírito: Ele nos fortalece na fé que começou no Batismo.

Queridos confirmandos, vocês hoje confessam publicamente aquilo que Deus já começou em vocês quando foram batizados.

Mas percebam: essa confirmação não vem de vocês mesmos — vem de Cristo, que continua reformando e fortalecendo o coração de vocês.

Vocês foram deformados pelo pecado, como todos nós.

O mundo vai tentar conformar vocês aos seus valores.

E muita coisa — redes sociais, opiniões, ideologias — vai tentar informar vocês com “verdades” que não vêm de Deus.

Mas o Espírito Santo quer que vocês sejam confirmados em Cristo: firmes na fé, enraizados na Palavra, sustentados na graça do Batismo.

Ser confirmado, portanto, não é o fim de um caminho, mas o início de uma vida de reforma contínua — uma vida sendo, dia após dia, moldada e reformada pela cruz de Cristo.

Por isso, sempre precisamos ser reformados pela Palavra de Deus — individualmente e como Igreja.

Diversos “ismos” nos afastam de Cristo crucificado: modernismo, secularismo, racionalismo, pietismo, institucionalismo, e até mesmo o luteranismo, se este se tornar um orgulho vazio, como o dos judeus que disseram a Jesus: “Somos descendentes de Abraão e jamais fomos escravos de ninguém.”

Mais uma vez: não me entenda mal! Damos graças a Deus por Lutero e por pertencermos à confissão de fé que leva seu nome.

Mas precisamos fazer uma pergunta bem luterana: “O que significa isso?”

Ser luterano significa seguir Lutero?
Significa apenas não ser católico romano?

Infelizmente, muitos pensam assim.

Mas ser luterano significa algo muito mais profundo: ser um pecador reformado por Cristo crucificado.

Não reformado por mim mesmo, nem por minhas obras.

Não reformado por minha razão ou força.

Nem reformado pelo que sinto no coração.

Mas reformado por Cristo crucificado.

Ser luterano, portanto, é compreender que a cruz não é apenas um acontecimento histórico, mas uma realidade presente.

Cristo continua reformando a nós e a Sua Igreja hoje.

Ser luterano significa saber e crer que o  Santo Batismo não é algo que fazemos, mas um lavar dos pecados, porque pela água e pela Palavra somos unidos a Cristo crucificado (Romanos 6).

Ser luterano significa saber e crer que a pregação do Evangelho não é mera informação ou instrução moral, mas o poder de Deus para a salvação (Romanos 1.16), que grava Cristo crucificado em nossos corações (Jeremias 31).

Ser luterano significa saber e crer que a Santa Ceia não é apenas uma refeição simbólica, mas o verdadeiro corpo e sangue de Cristo crucificado, dados e derramados por nós para perdão, vida e salvação.

E se fomos unidos a Cristo em Sua morte, então também seremos unidos com Ele em Sua ressurreição — reformados à Sua imagem, para viver uma vida nova.

Não mais deformados pelo pecado, conformados ao mundo ou informados por mentiras, mas reformados em Cristo.

Cristo crucificado.

Ser luterano também é levar Cristo crucificado ao mundo, onde quer que Deus nos coloque, com quem quer que convivamos, em tudo o que fazemos.

É viver, como disse Jesus, como pessoas libertas pelo Filho (João 8). Perfeitamente livres. Lutero explicou isso de modo magistral: “Um cristão é senhor livre sobre todas as coisas, e não sujeito a ninguém; e, ao mesmo tempo, servo de todos, sujeito a todos.” Usamos, portanto, nossa liberdade não como licença, mas como amor. Servindo, doando, perdoando. Entregando nossa vida assim como Cristo entregou a Sua por nós.

Mas nem todos querem esse tipo de vida ou esse tipo de Deus. Preferem um Deus forte e poderoso, e não um Deus crucificado. E querem para si uma vida igualmente triunfante e sem cruz.

Satanás quer nos fazer crer que força e fraqueza são opostos — que não se pode ser, ao mesmo tempo, poderoso e crucificado.

Mas Cristo crucificado nos mostra o contrário: que Deus nunca foi tão forte como quando estava na cruz, que Seu poder se aperfeiçoa na fraqueza, que o Todo-Poderoso se fez Filho do Homem porque nós somos filhos de homens, que Ele tomou carne porque nós somos carne, que nasceu sob a Lei porque nós estávamos sob a Lei, e que carregou nossos pecados na cruz, morrendo para que tivéssemos vida. Cativo, para nos libertar.

Ser luterano, enfim, é reconhecer que não podemos viver sem esse Cristo — Cristo crucificado.

Sem Ele, não há vida verdadeira aqui e agora, nem vida eterna.
A vida sem Cristo é apenas uma imitação de vida.
Nenhum paraíso terreno pode nos satisfazer.

Mas Cristo crucificado, ressuscitado e ascendido significa que nós também, já agora, participamos de Sua vitória.

Já estamos perdoados.

Já estamos reconciliados com Deus.

Já temos paz.

E nada — nenhum terror, decepção, sonho frustrado, ruína econômica, dor ou enfermidade — pode tirar isso de nós.

Como cantou Lutero:

 

“Se vierem roubar

os bens, vida e o lar –

que tudo se vá!

Proveito não lhes dá.

O céu é nossa herança.” (Castelo Forte, v.4) 

Será que nos desviamos da mensagem central? Preocupados demais com números, popularidade e crescimento?  Talvez sim — como sempre foi e sempre será.

Por isso, precisamos ser constantemente reformados. Constantemente conduzidos de volta a Cristo crucificado. Não apenas uma vez, mas sempre.

Em última análise, somos luteranos pela mesma razão que somos cristãos: pela graça, por meio da fé, em Cristo crucificado.

A Reforma é, sim, sobre um homem. Mas esse homem é Jesus Cristo.

Graças sejam dadas a Deus!

Em nome do Pai, e do (+) Filho, e do Espírito Santo. Amém.

MENSAGEM DO DIA DA REFORMA

TEXTOS: Jeremias 31.31-34; Romanos 3.19-28; João 8.31-36

Pastor Filipe Schneider – 26.10.2025

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O bom pastor Jesus

Todas essas palavras do Salmo 23 são promessas. Promessas do seu Bom Pastor. Não há “talvez”. Não há condições impostas. Só promessas. Só o que Ele fez e o que Ele ainda fará por você. Então, confie. Não em si mesmo, mas na Palavra dEle. Não em si mesmo, mas na cruz dEle. Na fidelidade dEle. Na constância dEle.

Você já parou para pensar em que momento da vida Davi escreveu o Salmo 23? 

Será que foi após a vitória contra Golias? Ou talvez depois de sobreviver à perseguição implacável de Saul, quando passou dias e noites literalmente andando pelo vale da sombra da morte? 

Quem sabe, foi após o episódio com Bate-Seba, quando cometeu adultério e ainda tentou encobrir seu pecado tirando a vida de Urias. Nesse momento, sua alma certamente clamava pelo perdão restaurador de Deus, ansiava pelo refrigério que só o perdão pode trazer, precisava ser conduzida de volta às veredas da justiça. 

Ou talvez tenha sido depois da rebelião de seu filho Absalão, quando Davi precisou fugir do próprio filho e se refugiar entre os filisteus. Um tempo sombrio, em que o Senhor, sem dúvida, preparou uma mesa para ele na presença de seus adversários. 

Ou foi quando Samuel o ungiu como rei de Israel? 

Ou, quem sabe, no fim da vida, ao olhar para tudo o que havia vivido, ele refletiu: Como eu sobrevivi a tudo isso? Eu nem deveria estar aqui! Por causa dos meus pecados — ou dos pecados dos outros — eu já deveria estar morto há muito tempo! Mas o Senhor foi meu pastor o tempo todo. Mesmo quando parecia ausente, mesmo quando eu era um tolo pecador, Ele estava comigo. Certamente a bondade e a misericórdia me acompanharam todos os dias da minha vida. 

Querido irmão, querida irmã, não sabemos em que momento da vida Davi escreveu o Salmo 23. Mas agora convido você a olhar para a sua própria vida. Com certeza, você já passou por momentos difíceis — assim como Davi. Não importa se você é jovem ou mais velho. Lembre-se das decisões erradas que tomou, dos perigos que enfrentou, das vezes em que se sentiu perdido, das situações em que se rebelou contra Deus. 

Quais foram os seus Golias, seus Sauls, suas Bate-Sebas e seus Absalões? 

Você realmente acredita que se não fosse pelo cuidado e proteção de Deus você deveria estar aqui hoje, vivo? Depois de tantos erros e pecados, você se sente digno de ser chamado filho de Deus? 

O fato é que quando olhamos com sinceridade para os momentos escuros da nossa vida, percebemos como é bom ter um Pastor que cuida de nós. 

Davi sabia o que era ser pastor. Ele conhecia bem a rotina: suportar o sol escaldante, proteger as ovelhas dos lobos, cuidar das feridas, buscar as perdidas, lidar com as dóceis e com as rebeldes, encontrar pasto verdejante e águas tranquilas. 

Ao olhar para toda a sua história, Davi percebeu que o Senhor sempre esteve ao seu lado, como um pastor está com suas ovelhas. 

Ele lhe dava a Lei, quando era necessário confrontar sua natureza pecaminosa, e depois lhe oferecia o alimento refrescante do Evangelho — o perdão e a vida. 

Deus o buscava quando se desviava, o fortalecia quando estava fraco, o protegia quando ameaçado.  

E assim Davi reconheceu: em todos os momentos, Deus cuidou dele. Por isso, pôde afirmar com confiança que a bondade e a misericórdia o acompanharam por toda a vida — e que ele habitaria na casa do Senhor para sempre. 

Queridos irmãos, somos como Davi. 

Somos inconstantes, tolos, inclinados a procurar pastagens que parecem mais verdes. Somos frágeis, como ovelhas sem pastor. 

E, como Davi com Bate-Seba, às vezes pensamos que certos pecados não têm perdão. Mas é justamente nesse momento que precisamos lembrar: Deus é maior que o nosso coração. 

Mesmo que o seu coração o condene, ele não tem a última palavra — Deus a tem. Ele conhece o seu coração muito melhor do que você. Conhece seus medos, suas falhas e suas lutas. E mesmo assim, Ele é o seu Bom Pastor. 

Ele é o seu Pastor, não porque você é bom — mas porque você é pecador. 

Ele cuida de você, não porque você é forte — mas porque você é fraco. 

Ele sabe que você precisa de perdão e de vida — e só Ele pode dar isso. 

Então, quando a condenação for a única voz que você ouvir, ouça a voz do seu Pastor que diz: 

"Não se turbe o seu coração. Eu te perdoo." 

Tenha confiança. 

Foi essa confiança que deu a Davi a certeza, no final de sua vida, de que o Senhor o havia guardado. 

E essa confiança não veio de Davi, mas da Palavra do Senhor — da voz do Bom Pastor, que é 

poderosa para criar fé no coração. 

Querida congregação, ouça a voz do Bom Pastor e confie. Você está seguro, porque Jesus diz: 

“Eu sou o Bom Pastor.” 

O Pastor de Davi. O seu Pastor. Ouça a sua voz e siga-o. 

No seu pasto, há alimento bom. Há água que refresca. Há segurança contra o lobo. Há perdão. Há vida. 

E mesmo que você não queira o pasto que Ele oferece, Ele está pronto a dar mais do que você precisa — seu cálice transbordará. 

O mundo pode ser assustador, cheio de inimigos. Mas é exatamente aqui, neste mundo, que Ele prepara uma mesa para você. E nesta mesa, Ele te dá seu Corpo e Sangue — alimento que perdoa, sustenta e fortalece. 

Exatamente aqui, neste mundo, que Ele também o conduz com sua vara e seu cajado — sua Lei e seu Evangelho — que te guiarão. 

Você não precisa temer o mal. Nem mesmo o vale da sombra da morte. Porque Ele passou por esse vale e venceu. E Ele vai te conduzir pelo mesmo caminho. 

Hoje, mais uma vez, o seu Bom Pastor está te dizendo: “Sim, meu filho, minha filha — Minha bondade e misericórdia te seguirão todos os dias da sua vida. Mesmo quando você não as enxergar, elas estarão ali. E sim, você habitará na minha casa para sempre.” 

Todas essas palavras do Salmo 23 são promessas. Promessas do seu Bom Pastor. Não há “talvez”. Não há condições impostas. Só promessas. Só o que Ele fez e o que Ele ainda fará por você. Então, confie. Não em si mesmo, mas na Palavra dEle. Não em si mesmo, mas na cruz dEle. Na fidelidade dEle. Na constância dEle. 

Querido filho de Deus, ouça a voz do seu Pastor. Siga-o, por onde Ele te conduzir. Pois Ele é o Seu Bom Pastor. E você é o seu cordeiro. Amém.

MENSAGEM DO 4º DOMINGO DE PÁSCOA

TEXTO: Salmo 23

Pastor Filipe Schneider – 11.05.2025

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Sob as asas de Jesus

Martinho Lutero teria dito: "Sempre que Deus constrói uma igreja, o diabo constrói uma capela ao lado." Assim, para cada profeta verdadeiro, há um falso profeta contradizendo a mensagem divina.

— Jerusalém, Jerusalém, que mata os profetas e apedreja os mensageiros que Deus lhe manda! Quantas vezes eu quis abraçar todo o seu povo, assim como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das suas asas, mas vocês não quiseram! (Lucas 13.34)

Ao lermos as Escrituras Sagradas, percebemos uma impressionante consistência: 

1) a rebeldia e pecaminosidade do ser humano  

2) a paciência e amor inabaláveis de Deus.

Deus enviou profetas ao Seu povo incansavelmente, chamando-os ao arrependimento e à restauração. Homens como Samuel, Elias, Eliseu, Isaías, Jeremias, Ezequiel e tantos outros foram enviados. Mas qual foi a resposta do povo? Eles não apenas ignoraram os profetas; foram além, rejeitando-os violentamente. Como ouvimos hoje sobre Jeremias: se a mensagem não agrada, a solução é matar o mensageiro.

Assim também ocorre no Novo Testamento. Paulo descreve aqueles que andam como inimigos da cruz de Cristo: Eles vão para a destruição no inferno porque o deus deles são os desejos do corpo. Eles têm orgulho daquilo que devia ser uma vergonha para eles e pensam somente nas coisas que são deste mundo (Filipenses 3.19). Contudo, Deus, em Seu amor fiel, não desiste do Seu povo. Ele continua chamando, buscando, salvando.

Mas por que as pessoas rejeitam a Palavra de Deus? Algumas razões se destacam. Primeiramente, porque os falsos profetas estão sempre por perto. Martinho Lutero teria dito: "Sempre que Deus constrói uma igreja, o diabo constrói uma capela ao lado." Assim, para cada profeta verdadeiro, há um falso profeta contradizendo a mensagem divina. No tempo de Jeremias, enquanto ele anunciava a necessidade de arrependimento, os falsos profetas pregavam paz e segurança ilusórias. Qual mensagem seria mais fácil de ouvir?

Hoje, não é diferente. Para cada pregador que proclama a verdade, há outros afirmando que pecado não é pecado, que não precisamos mudar nada, que Deus apenas deseja nosso conforto. E essa é uma mensagem atraente, porque não exige arrependimento nem santidade.

A segunda razão para a rejeição da Palavra é a falta de memória espiritual; memória curta! Quando tudo vai bem, as pessoas esquecem de Deus e confiam em sua própria segurança. Quando tudo vai mal, duvidam do amor e cuidado divinos. Em ambos os casos, a última coisa que querem é um profeta chamando ao arrependimento.

Assim também foi com Jesus. Os fariseus disseram: — Vá embora daqui, porque Herodes quer matá-lo (Lucas 13.31). Eles queriam que Ele desaparecesse, pois Sua presença incomodava. Mas que tipo de Deus queremos? Um que nos deixe em paz, ou um que nos salve?

Na semana passada ouvimos sobre nosso Deus que veio lutar contra Satanás por nós e vencer. Jesus lutando no deserto contra as tentações do diabo. Nós gostamos disso. 

As leituras de hoje tocam mais de perto, revelando um Deus que não veio apenas para nos salvar de Satanás, mas também de nós mesmos—de nossa natureza pecaminosa, de nossas inclinações rebeldes e desejos destrutivos. E isso é algo bem menos confortável de admitir. Aqueles pintinhos que não queriam ficar sob as asas da galinha? Não era só Israel. Não eram apenas os fariseus. Era eu. Porque eu não quero me arrepender. Não quero abrir mão dos pecados que me agradam. Não quero a disciplina de Deus. Não quero ouvir que estou pensando, agindo, falando e desejando de forma errada. Prefiro os falsos profetas que prometem o mundo e dizem que meu pecado não é pecado, que está tudo bem... Mas será que está mesmo? 

Nosso Deus é o Deus que luta por nós, que veio para nos salvar não apenas de Satanás, mas também de nós mesmos, da nossa natureza pecaminosa e rebelde. Jesus não fugiu, mas seguiu Seu caminho até a cruz, onde pagou por nossos pecados. Como um pai amoroso disciplina seus filhos para seu bem, Deus nos chama ao arrependimento para nos dar vida verdadeira.

Mesmo diante da ameaça imposta pelos fariseus, Jesus não foi embora. Ele permaneceu e cumpriu Sua obra redentora. Ele continua presente hoje, reunindo Seu povo sob Suas asas. A transformação que Ele opera em nós começa agora, através do arrependimento, do Batismo, da Palavra e da Santa Ceia. Ele nos sustenta na fé e nos fortalece para resistirmos aos enganos deste mundo.

No final da leitura de hoje, Jesus diz Eu afirmo que vocês não me verão mais, até chegar o tempo em que dirão: “Deus abençoe aquele que vem em nome do Senhor!” (Lucas 13.35). Cantamos essa mesma expressão na liturgia da Santa Ceia, confessando que Cristo não nos abandonou, mas está presente em meio ao Seu povo.

Os problemas ainda virão. Satanás não desistirá de nos atacar. Mas em Cristo temos refúgio seguro. Como Paulo escreve em Romanos 8.38-39: Pois eu tenho a certeza de que nada pode nos separar do amor de Deus: nem a morte, nem a vida; nem os anjos, nem outras autoridades ou poderes celestiais; nem o presente, nem o futuro; nem o mundo lá de cima, nem o mundo lá de baixo. Em todo o Universo não há nada que possa nos separar do amor de Deus, que é nosso por meio de Cristo Jesus, o nosso Senhor. 

Nosso conforto não está no fato de que nós amamos a Deus perfeitamente, mas na certeza de que Deus nos ama com todo o Seu coração. Por isso, Ele nos chama ao arrependimento, nos leva à cruz, nos alimenta com Sua Palavra e Sacramento, e nos conduzirá para casa no Último Dia.

Que essa confiança encha nossos corações e nos dê forças para permanecer firmes na fé, sabendo que em Cristo, o Deus que nos ama de todo o coração, estamos debaixo das asas de seu amor. Amém.

MENSAGEM DO 2º DOMINGO NA QUARESMA

TEXTOS: Lucas 13.31-35; Jeremias 26.8-15; Filipenses 3.17-4.1

Pastor Filipe Schneider – 16.03.2025

Somos mendigos, essa é a verdade

Somos mendigos, esta é a verdade, escreveu Lutero. Somos como as pessoas que ficam sentadas nas ruas, na sarjeta, segurando um pequeno copo, pedindo ajuda. Ou, colocando na linguagem bíblica, exclamando: Senhor, Filho de Davi, tenha pena de mim.

Há muitas frases famosas atribuídos a Martinho Lutero – algumas ele realmente falou ou escreveu, outras não. Mas é isso que acontece quando você é muito conhecido. As pessoas lhe atribuem coisas, mesmo não tendo a certeza de que você realmente as disse. 

Hoje, eu quero refletir um pouco sobre o que Lutero disse – ou na verdade, sobre o que ele escreveu. Nós podemos dizer que isso o levou a sua grande descoberta da Reforma. Eu não estou falando das frases que a maioria das pessoas se lembram ao pensar na Reforma: os três solas – sola gratia, sola fide e sola scriptura (somente pela graça, somente pela fé e somente pela escritura). Pois esses termos descrevem com precisão a teologia de Lutero, mas ele provavelmente nunca os disse juntos. A junção dessas três frases como elas estão, veio um pouco mais tarde. Não, não são estas frases que, penso eu, são tão importantes para Lutero, e que podemos dizer que conduziu o avanço da Reforma. A frase à qual eu me refiro é a seguinte: Somos mendigos, esta é a verdade. 

Lutero escreveu essa frase em um pequeno pedaço de papel que foi encontrado em seu bolso quando ele morreu. Agora, como muitas palavras são atribuídas a Lutero, há algumas contradições sobre o que exatamente estava escrito nesse papel; há diferentes versões da história. Mas, com a última linha, todas as versões concordam. Somos mendigos, esta é a verdade. É essa a mensagem para você hoje. Pois sabendo disso, você conhece Lutero, você compreende os três solas, e você sabe do que se tratava a Reforma. 

Somos mendigos, esta é a verdade. Quando você conhece isso, você sabe que não há absolutamente nada que você possa fazer para obter o favor de Deus. Você não pode chegar a Deus através da meditação, contemplação ou misticismo. Você não pode ser justo através dos seus próprios esforços por suas obras, orações e abnegação. Você não pode oferecer coisas a Deus em troca do perdão dos seus pecados. Todas essas coisas eram ensinadas na época de Lutero e ainda são ensinadas hoje. Mas se você é um mendigo, você não as pode fazer. Se você é um mendigo, você não tem nada. 

Somos mendigos, esta é a verdade, escreveu Lutero. Somos como as pessoas que ficam sentadas nas ruas, na sarjeta, segurando um pequeno copo, pedindo ajuda. Ou, colocando na linguagem bíblica, exclamando: Senhor, Filho de Davi, tenha pena de mim. 

Agora, muitos simplesmente passam por aqueles mendigos que estão nas ruas, na sarjeta. Alguns fingem não os ver. Outros não se importam. Outros são céticos com eles. Alguns estão muito ocupados para ajudar. Ou estão atrasados e com muita pressa. Mas nós, que somos mendigos diante de Deus, não somos tratados assim. Deus é aquele que para. O Filho de Davi. O Bom Samaritano. O Bom Pastor. O próprio Filho de Deus, o Messias prometido. Ele não apenas joga uma ou duas moedas em nossos pequenos copos; ele derrama em nossos corações seu perdão, vida e salvação. Ele nos tira da sarjeta e nos coloca em sua mansão. Ele nos alimenta, nos veste, nos limpa. Ele faz tudo por nós mendigos, tudo o que precisamos. 

E é por isso que a nossa salvação é somente pela graça – sola gratia. Nós não podemos fazer nada, nossa salvação é obra de Deus. Deus não age graciosamente em nosso favor, em favor dos mendigos, porque merecemos; Ele não age com graça por causa de quem somos, mas por causa de quem Ele é. Deus ajuda aqueles que não podem se ajudar. Como mendigos, tudo o que temos nos é dado por graça. Graça completamente imerecida. Sola gratia. 

Também é por isso que a nossa salvação é somente por fé – sola fide. Tudo o que podemos fazer é receber este dom de Deus, esse presente imerecido, pela fé. Pois se você é aquele mendigo que está na sarjeta, você até pode se gabar do seu copo – do quão bonito, forte, maravilhoso e magnifico ele é. E se alguém lhe perguntar: como você conseguiu tanta ajuda? Você até poderia dizer: eu tenho um excelente copo! Mas você não estaria dizendo a verdade. Na verdade, é porque você tem um grande Senhor, um grande e misericordioso Salvador. Seu copo é a sua fé, que é preenchido por Jesus. É tudo por graça, através da fé. Sola fide. 

E isso nos é dado somente pela Escritura – sola scriptura. Nosso copo, nossa fé, é dado e formado pela Palavra de Deus. A Palavra de Deus que fala do nosso Salvador, onde aprendemos sobre a sua grande misericórdia. A Palavra pela qual aprendemos sobre o perdão que Jesus ganhou para nós na cruz, a Palavra onde aprendemos sobre sua morte e ressurreição. E a Palavra que se uniu com a água simples, Palavra que se uniu com o pão e o vinho, anexando as promessas de Deus a essas coisas, fazendo delas veículos de sua graça. Palavra que unida a água se torna o Santo Batismo. Palavra que faz com que recebamos pão, vinho, corpo e sangue na Santa Ceia. Sem a Palavra, não teríamos isso e não saberíamos disso. Tudo isso nos é dado e ensinado pela Escritura. Sola scriptura. 

E juntando tudo isso, nós temos o Sola Christus – somente por Cristo. É Cristo que preenche, como sabemos, os nossos três solas. Somos mendigos, esta é a verdade. E ele é o amigo, o Salvador, dos mendigos. Esta é a verdade. Tudo o que somos, tudo o que temos, é somente por causa de Cristo. Da criação à redenção para a vida eterna – tudo é por causa de Cristo. 

Somos mendigos, esta é a verdade. E não importa quem você é, o quão bem-sucedido e rico você seja. Como nos lembra a leitura de Apocalipse, todos os povos da terra, todas as raças, tribos, línguas e nações, precisam do Evangelho eterno. Para que possam receber o que não têm. Para que possam receber o que precisam para a vida eterna. 

Somos mendigos, esta é a verdade. Era o que Paulo estava explicando em Romanos. A lei de Deus nos mostra como somos infelizes e miseráveis pecadores. A lei nos diz: seja assim, mas nós não somos. A lei nos diz: façam isso, mas não fazemos. A lei nos diz: não façam isso, aí nós fazemos! Será que temos motivos para ficarmos orgulhosos? Pergunta Paulo. Não, a lei nos condena. A lei nos responsabiliza. A lei nos mostra a dívida que não podemos pagar. Somos mendigos, esta é a verdade. 

Mas, Paulo continua, e a verdade é que sim, somos mendigos, não podemos pagar por nossa dívida, mas também é verdade que estamos todos perdoados. Através da redenção que há em Cristo Jesus. Através de Jesus que pagou a nossa dívida. Através de Jesus que ressuscitou dentre os mortos e nos dá a sua justiça. É ele que enche os copos dos mendigos com as riquezas da sua graça. 

Você percebeu os três solas nas palavras de Paulo? A lei e os profetas, diz ele, testemunham a justiça de Deus – sola Scriptura. Justificados gratuitamente, por sua graçasola gratia. Mediante a fésola fide. Tudo isso por causa de Cristo. Será que os mendigos podem se gloriar depois de tudo isso? Não em nós mesmos, somente em Cristo. Somos mendigos, esta é a verdade. Mas agora também somos santos, esta é a verdade! 

E finalmente, ouvimos João. Na verdade, ele não disse que somos mendigos – João usa palavras mais fortes: somos escravos. Escravos do pecado. Escravos que não podem fazer o que querem fazer, por causa do pecado em nós. Pecado que nos impulsiona a dizer palavras que ferem, a cometer ações egoístas, pensamentos vergonhosos e desejos impuros. E essa é uma escravidão que é perigosa e enganosa porque se mascara como liberdade. Pois você pensa que pode fazer o que quiser, mas o que você faz é o que a sua escravidão lhe determina, o que o seu pecado lhe diz para fazer. Você desiste do paraíso por uma ou duas gostosas mordidas, que rapidamente se tornam amargas. Sim, somos mendigos, esta é a verdade

 Mas, conforme, João nos diz: se o Filho os libertar, vocês serão, de fato, livres. O Filho, a esperança para os mendigos. O amigo dos mendigos. O libertador dos mendigos. O Salvador dos mendigos. Ou como Lutero escreveu em seu hino: 

Sem força para combater, teríamos perdido. Por nós batalha irá vencer quem Deus tem escolhido. Quem é vencedor? Jesus Redentor (dos mendigos). 

Somente Cristo salva os mendigos. Não há liberdade em nenhum outro. Não há esperança para os mendigos além dele. 

Somos mendigos, esta é a verdade. Então, querido irmão, se você se lembrar de apenas um dito de Lutero sobre o Dia da Reforma, lembre-se desse. E retire do bolso o seu copo de fé em arrependimento para que Jesus o preencha. Preencha-o com o seu perdão, com sua misericórdia, com seu amor. Para que o preencha com o seu Espírito. Para que preencha suas bocas agora com seu corpo e sangue. Pois a verdade é: onde Jesus está, é bom ser um mendigo. Amém.

MENSAGEM DIA DA REFORMA

TEXTOS: João 8.31-36; Romanos 3.19-28; Apocalipse 14.6-7

Pastor Filipe Schneider – 03.11.2024

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Prestem mais atenção na verdade

 Pesquisas recentes têm demonstrado uma profunda relação do uso intenso da internet (e das telas) com o TDAH. Os estudos dizem que os usuários mais intensos dos dispositivos eletrônicos têm duas vezes mais chances de desenvolverem sintomas desse transtorno.

              Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade ou TDAH. Uma sigla bastante difundida. Você certamente já ouviu falar a respeito. Esse transtorno se manifesta essencialmente nas alterações comportamentais, como desatenção, hiperatividade, impulsividade e procrastinação. Pesquisas recentes têm demonstrado uma profunda relação do uso intenso da internet (e das telas) com o TDAH. Os estudos dizem que os usuários mais intensos dos dispositivos eletrônicos têm duas vezes mais chances de desenvolverem sintomas desse transtorno.

            Em um mundo cada vez mais tecnológico e conectado, as pessoas acabam desenvolvendo com maior facilidade a desatenção ou a falta de concentração. Talvez essa realidade torne as palavras que ouvimos na carta ao Hebreus ainda mais relevantes. Diz o texto:

“Por isso devemos prestar mais atenção nas verdades que temos ouvido, para não nos desviarmos delas... como é que nós escaparemos do castigo se desprezarmos uma salvação tão grande?”

            Veja, o autor da carta ao Hebreus diz não apenas para prestarmos atenção, mas para prestarmos mais atenção à Palavra de Deus; para que não nos afastemos dela. Deixar de prestar atenção à Palavra de Deus não é uma coisa pequena. Significa negligenciar a nossa própria salvação.

            É possível ler este versículo dessa forma: “por isso devemos prestar mais atenção nas verdades que temos ouvido, para não nos desviarmos DE DEUS. Desviar a atenção da pregação do Evangelho é se afastar de Cristo. Cristo, que é a Palavra que se encarnou – se tornou um ser humano e morou entre nós. Todas as páginas da Bíblia apontam para Cristo. E assim se afastar da Palavra, deixar de prestar atenção à Palavra, é se afastar de Cristo... é correr o risco de perder a salvação.

            “Por isso devemos prestar mais atenção nas verdades que temos ouvido”…, diz o autor aos Hebreus.

            Fato é que o mundo em que vivemos nos traz cada vez mais a facilidade de consumo de informações. No início da humanidade, as histórias e os ensinamentos eram transmitidos oralmente. Chamamos isso de tradição oral. Depois vieram os primeiros escritos. Surgiram assim os papiros e os pergaminhos. Com o advento da imprensa no século 15 veio o surgimento dos livros, que agora poderiam ser replicados em grande escala. Séculos depois, no final do século 19 veio o surgimento do rádio. Em tempos mais recentes a televisão. E algumas décadas atrás o surgimento da internet. Com o avanço dos dispositivos eletrônicos, hoje você tem mais acesso às informações do que jamais se imaginou. Por um lado isso pode ser positivo. No entanto, a alta exposição às informações também traz alguns problemas. Vou citar três: 1) No meio dessa gigantesca quantidade de dados consumidos, há muitas inverdades. O que é verdade? O que é fake? 2) Com tantas opções de consumo de conteúdo, a Palavra de Deus, a Bíblia, pode ficar ofuscada, não recebendo a devida atenção. 3) Há muita coisa por aí, dentro do campo religioso, inclusive no meio cristão, que não passa de Teologia fajuta e que visa não a salvação das pessoas mas o benefício próprio daqueles que difundem esses ensinos. Esses dias ouvi de um irmão nosso que há muito “lixo espiritual” por aí.

            Por essas razões “devemos prestar mais atenção nas verdades que temos ouvido”...  

            Mas o que isso significa pra nós? Bem, isso significa várias coisas. Especialmente dentro desse contexto atual já exposto, significa não permitir que a Palavra de Deus deixe de ter importância e relevância para nós em meio a tantas outras informações e conteúdos. Significa, também, que neste mundo em que cada vez mais as pessoas sofrem com dificuldades de concentração, que nossa atenção ao ouvirmos a Palavra de Deus deve ser redobrada. Significa que devemos estar aptos e bem preparados para sabermos distinguir aquilo que de fato Deus diz daquilo que pessoas dizem, a fim de não sermos enganados.

            Lembre-se das palavras da carta aos Hebreus: “devemos prestar mais atenção nas verdades que temos ouvido”... 

            Nem sempre isso é fácil. Vamos olhar para nós mesmos. Você ouviu e prestou mais atenção à Palavra de Deus que foi lida agora a pouco? Imagine se houvesse uma espécie de teste agora e eu te perguntasse sobre o que tratava cada uma das leituras, você saberia me dizer em detalhes? E quanto a Palavra de Deus que você ouve durante a semana? E quanto a aplicação da Palavra de Deus na sua vida? Ela tem algum impacto sobre você ou a Palavra de Deus é somente histórias sobre outras pessoas e sobre outros tempos e lugares, sem nenhum impacto perceptivo em seus pensamentos ou em sua vida? Sim, meus irmãos, a verdade é que todos nós precisamos prestar mais atenção...

            Mas isso não é tudo quando se fala em prestar mais atenção à Palavra. Existe ainda um perigo maior que enfrentamos quando ouvimos a Palavra de Deus sem a devida atenção. E o perigo é considerar a Palavra de Deus um livro de regras e de leis. Ao agir assim, as pessoas acham que a Palavra de Deus trata principalmente de instruções a respeito de como você deve viver, o que você deve fazer e como você deve ser se quiser ser cristão e ir para o céu. Esse é o maior perigo porque ele tem a aparência de ser correto, certo e sagrado... mas definitivamente não é bom; é perigoso.

            É claro que a Palavra de Deus contém leis e regras. É claro que Deus nos revela a sua vontade e espera de nós obediência. Existem instruções sobre como Deus quer que vivamos! Deus promete bênçãos para aqueles que o obedecem. Mas isso não faz da Palavra de Deus um manual. Porque a Palavra de Deus em primeiro lugar fala de Jesus, não de você; a Palavra de Deus fala em primeiro lugar sobre a vida de Cristo, não sobre a sua; a Palavra de Deus fala em primeiro lugar sobre o que Jesus fez por você, não sobre o que você deve fazer. E assim, prestar mais atenção à Palavra é ouvir a Palavra de Deus não como um livro de regras e leis, mas um livro que nos apresenta Jesus, que nos dá vida, esperança, perdão e salvação.

            Esse era exatamente o problema dos Fariseus. Eles gostavam de leis e regras, e é por isso que eles estavam testando Jesus com sua pergunta sobre o casamento… se o divórcio era lícito ou não. Como você ouviu aquelas palavras? Talvez a maioria das pessoas, quando ouvem aquelas palavras, pensem imediatamente: trata-se de leis e regras! Algo como: “Você não tem a permissão para se divorciar. E se você se divorciar não poderá se casar novamente! Porque cristão não faz esse tipo de coisa...” Bom, eu tenho uma notícia: os cristãos fazem esse tipo de coisa! A taxa de divórcios na igreja talvez seja tão alta quanto fora dela. Na Palavra de Deus existe lei, mas com a devida atenção, descobrimos que não se trata apenas de lei, mas que nos é necessário reconhecer que não somos capazes de cumprir a lei de Deus integralmente. E é por isso que confessamos – toda a semana, todo dia – que somos pecadores e impuros. Não somos muito bons com regras e leis, seja na igreja ou em qualquer outro lugar.

            Mas você ouviu como Jesus os respondeu? Jesus não falou de regras com eles. Eles citaram uma palavra de Moisés sobre regras (sobre a Lei), mas Jesus apontou para uma palavra de Moisés sobre a vida. Jesus apontou para o começo, para a criação, quando Deus deu vida e fez homem e mulher e uniu os dois através do casamento. O fato é que o divórcio não é apenas sobre cumprir ou infringir uma lei – o divórcio é como se fosse a morte. A morte de um casamento. A morte de algo que Deus criou no princípio e que era bom. É o resultado da morte que Adão e Eva trouxeram ao mundo quando não prestaram mais atenção na Palavra de Deus e decidiram prestar mais atenção na palavra do diabo e comer o fruto proibido. Deus disse a eles: “no dia em que você o comer, certamente morrerá” e nós estamos morrendo desde então. Pois temos sido pecadores e impuros desde então. Veja, essa é uma boa maneira de olhar para o pecado, o pecado não é apenas quebrar regras, mas morrer. Satanás prometeu aos nossos primeiros pais que o pecado não os mataria, mas lhes daria uma vida melhor! Ele mentiu. E nós temos acreditado na mesma mentira desde então.

            “Por isso devemos prestar mais atenção nas verdades que temos ouvido”...  

            Que verdades são essas? Essas verdades falam sobre Jesus. Jesus veio para nos dar vida em meio à morte. Mesmo diante do divórcio, há o perdão de Jesus. E Jesus continua vindo com sua vida e perdão até nós ainda hoje. Que a vida que ele ganhou através de sua morte e ressurreição não seja apenas mais uma informação ou mais um conteúdo a ser consumido por você, mas uma realidade constante. A vida que Jesus te dá não é uma vida que você precisa procurar até encontrar, mas uma vida que ele te dá aqui, na Absolvição, na sua Palavra e no Sacramento deste altar.

            Não vamos desprezar uma salvação tão grande! “Por isso vamos prestar mais atenção nas verdades que temos ouvido.” Amém.

MENSAGEM DO 20o DOMINGO APÓS PENTECOSTES

TEXTOS: Hebreus 2.1-18 e Marcos 10.2-16

Pastor Filipe Schneider – 06.10.2024

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